Pressão alta: o que fazer quando o remédio não controla

Dr. Angelo Bannack

Atualizado há 17 dias

Introdução

Este artigo faz parte de uma série sobre hipertensão arterial. Se você ainda não leu os anteriores, recomendo começar pelo que explica o que é pressão alta e como ela se desenvolve, e depois pelo que detalha como o diagnóstico é feito e quando o remédio é indicado. Este terceiro artigo começa onde aquele termina: você está em tratamento, mas a pressão não está na meta. O que pode estar acontecendo?

É uma situação frustrante e mais comum do que se imagina. Estimativas consistentes indicam que menos da metade dos pacientes hipertensos em tratamento têm a pressão adequadamente controlada. O problema, na grande maioria dos casos, não é que o remédio seja ineficaz — é que algo está impedindo que ele funcione.

📋 O essencial deste artigo

  • Pressão alta que não cede com o tratamento tem causas identificáveis na maioria dos casos — e falta de adesão ao medicamento é a principal delas.
  • Anti-inflamatórios, descongestionantes nasais, anticoncepcionais combinados e consumo elevado de álcool são os principais interferentes medicamentosos e comportamentais.
  • Hipertensão verdadeiramente resistente — que não responde a três medicamentos em doses adequadas, sendo um deles diurético — é menos comum do que parece e exige exclusão de outras causas antes do diagnóstico.
  • A combinação de medicamentos desde o início do tratamento, recomendada pela diretriz 2025, não significa falha — é a estratégia com melhor evidência para a maioria dos pacientes.
  • Retornar ao médico quando a pressão não controla é o caminho correto. Ajustar medicação por conta própria pode piorar o quadro.

Por que a pressão não cede mesmo com o remédio?

Antes de concluir que o tratamento está falhando e aumentar doses ou adicionar medicamentos, o médico precisa investigar sistematicamente as causas mais comuns de pressão não controlada. Pulá-las é um erro frequente.

Falta de adesão ao tratamento

É a causa mais prevalente, e também a menos confessada. Esquecer uma dose aqui e outra ali, tomar o remédio em horários irregulares, interromper nos dias em que a pressão parece estar boa ou simplesmente parar sem avisar o médico — tudo isso compromete de forma significativa o controle da pressão. Não é julgamento: tratamentos crônicos têm desafios reais de manutenção ao longo do tempo, e reconhecer isso abertamente com o médico é o ponto de partida para encontrar soluções práticas.

A diretriz brasileira de hipertensão de 2025 reforça que a adesão inadequada deve ser a primeira hipótese avaliada quando a pressão não atinge a meta — antes de qualquer ajuste de medicação.

Substâncias que elevam a pressão

Alguns medicamentos de uso comum interferem diretamente no controle da pressão arterial e, quando usados regularmente, podem anular completamente o efeito dos anti-hipertensivos. Os principais são:

Os anti-inflamatórios não esteroides (como ibuprofeno, naproxeno e diclofenaco) são os campeões nessa categoria. Usados com frequência para dores articulares, musculares ou de cabeça, causam retenção de sódio e água e reduzem o efeito de várias classes de anti-hipertensivos. Uma pessoa que toma losartana todos os dias e usa ibuprofeno regularmente pode ter a pressão completamente descontrolada por causa disso — sem entender o motivo.

Os descongestionantes nasais com fenilefrina ou pseudoefedrina, comuns em remédios para gripe e sinusite, têm efeito vasoconstritor direto e elevam a pressão de forma aguda. Mesmo o uso ocasional pode ser suficiente para desestabilizar o controle em pacientes mais sensíveis.

Os anticoncepcionais hormonais combinados (estrogênio + progestagênio) podem elevar a pressão arterial em algumas mulheres, especialmente após os 35 anos ou em quem já tem predisposição. Quem usa anticoncepcional hormonal combinado deve ter a pressão monitorada com atenção.

Os corticosteroides sistêmicos em uso prolongado (como prednisona e dexametasona) causam retenção de sódio e elevação da pressão como efeito inerente ao mecanismo da droga.

Além dos medicamentos, o consumo elevado de álcool tem relação direta e dose-dependente com a pressão arterial. Uma ou duas doses diárias já têm impacto mensurável. E o consumo excessivo de sódio — presente em quantidades muito maiores do que se percebe em alimentos industrializados, embutidos e refeições de restaurante — potencializa a pressão e reduz a eficácia dos diuréticos tiazídicos.

Técnica de aferição e contexto da medida

A pressão medida em situação de ansiedade, logo após atividade física, após café ou cigarro, ou com braçadeira de tamanho inadequado para o braço pode dar valores artificialmente elevados. Uma medida isolada fora de condições adequadas não reflete a pressão real. Para o acompanhamento do tratamento, a monitorização residencial (MRPA) com registro domiciliar é mais representativa do que medidas esporádicas no consultório.

Hipertensão do avental branco

Algumas pessoas têm a pressão consistentemente alta nas consultas, mas normal fora desse ambiente. Se a pressão está aparentemente elevada no consultório, mas o paciente relata valores domiciliares dentro da meta e não tem sintomas, vale investigar esse padrão com MAPA ou MRPA antes de intensificar o tratamento.


O que é — e o que não é — hipertensão resistente

O termo “resistente” é usado com frequência no dia a dia, mas tem uma definição clínica precisa que nem sempre corresponde ao que se imagina.

A definição correta: hipertensão arterial resistente é aquela que permanece acima da meta mesmo com o uso de três anti-hipertensivos de classes diferentes, em doses otimizadas, sendo obrigatoriamente um deles um diurético. Tudo isso após confirmação de que o paciente está tomando os medicamentos corretamente.

Por que a maioria dos casos não é resistência verdadeira: a diretriz 2025 chama atenção para o que chama de “pseudorresistência” — pressão aparentemente não controlada que, na investigação, tem uma causa identificável e tratável. Falta de adesão, interferência medicamentosa, sódio excessivo ou medida técnica inadequada são responsáveis pela maior parte dos casos rotulados como resistência. Só após excluir todas essas causas é que o diagnóstico de resistência verdadeira se confirma.

Quando a resistência é confirmada: o médico avança para a investigação de causas secundárias de hipertensão — condições que produzem hipertensão como consequência e que têm tratamento específico. As principais são: hiperaldosteronismo primário (produção excessiva de aldosterona pelas glândulas adrenais), doença renal parenquimatosa ou renovascular, hipotireoidismo e apneia obstrutiva do sono grave não tratada. O encaminhamento para cardiologia ou nefrologia tem indicação precisa nesses casos.


A lógica das combinações de medicamentos

É muito comum os pacientes chegarem à consulta preocupados com o fato de estarem usando “dois ou três remédios para pressão”. A pergunta implícita é quase sempre a mesma: isso significa que o caso está grave ou que os medicamentos não estão funcionando?

Não. Significa que a pressão arterial é regulada por múltiplos mecanismos no organismo simultaneamente, e que cada classe de anti-hipertensivo age em apenas um deles. Usar dois medicamentos em doses moderadas é, na maioria das vezes, mais eficaz e mais bem tolerado do que forçar uma dose alta de um único medicamento.

A diretriz brasileira de 2025 recomenda explicitamente iniciar o tratamento com combinação de dois anti-hipertensivos para a maioria dos pacientes com hipertensão nos estágios 1 e 2. Essa recomendação não é novidade — já estava presente nas diretrizes anteriores — mas foi reforçada com base na evidência acumulada de que a monoterapia, mesmo em doses altas, raramente controla a pressão de forma satisfatória a longo prazo.

As combinações preferidas são aquelas que combinam mecanismos complementares sem sobreposição de efeitos adversos. A associação mais usada e com maior respaldo é a de um inibidor da ECA ou BRA (losartana, enalapril, valsartana) com um bloqueador de canal de cálcio (anlodipino, nifedipino de liberação lenta). Quando a meta ainda não é atingida, adiciona-se um diurético tiazídico (clortalidona ou indapamida são preferidas na diretriz 2025 em relação à hidroclorotiazida).

Os betabloqueadores (metoprolol, carvedilol, atenolol) não são primeira linha para hipertensão isolada, mas têm papel importante quando o paciente tem insuficiência cardíaca, fibrilação atrial ou angina associada — situações em que o controle da frequência cardíaca e da pressão caminha junto.


O que fazer — e o que não fazer — quando a pressão não controla

A resposta direta para quem está em tratamento e vê a pressão persistentemente alta fora da meta é: retornar ao médico e descrever o que está acontecendo com detalhes. Qual remédio está sendo tomado, em que horário, se houve alguma interrupção, quais outros medicamentos estão sendo usados e como são os valores domiciliares — essa informação orienta o raciocínio clínico e evita ajustes equivocados.

O que não fazer:

Aumentar a dose do remédio por conta própria é uma das atitudes mais comuns e mais problemáticas. Sem saber a causa da pressão não controlada, aumentar a dose pode gerar efeitos adversos desnecessários sem resolver o problema real.

Trocar o remédio por outro indicado para um familiar ou conhecido é igualmente arriscado. Anti-hipertensivos têm indicações específicas por perfil de paciente — o que funciona para uma pessoa pode ser contraindicado para outra.

Parar o tratamento porque “o remédio não está adiantando” remove o efeito que ele já tem, mesmo que parcial, e pode causar elevação brusca da pressão com risco de evento cardiovascular.


A pressão controlou: posso parar o remédio?

É uma das perguntas mais frequentes — e merece uma resposta clara.

A pressão controlada não significa que a hipertensão foi curada. Significa que o tratamento está funcionando. Interromper o medicamento por conta própria geralmente resulta em elevação da pressão nas semanas seguintes, às vezes de forma rápida e significativa.

Há situações em que o médico pode considerar reduzir gradualmente a medicação — por exemplo, em pacientes que fizeram mudanças expressivas de estilo de vida (perda de peso significativa, redução importante de sódio, atividade física regular) e mantêm pressão consistentemente abaixo da meta por período prolongado. Mas essa é uma decisão clínica individualizada, tomada com acompanhamento, não uma suspensão unilateral.

A mensagem mais importante: qualquer mudança no tratamento — reduzir, trocar ou parar — deve ser discutida com o médico que acompanha o caso.


Adesão a longo prazo: o desafio real do tratamento crônico

Manter o tratamento de uma condição que não dói, não dá sintomas perceptíveis e exige medicação diária indefinidamente é genuinamente difícil. A hipertensão é silenciosa — e o tratamento eficaz também é silencioso, porque previne eventos que a pessoa nunca vai saber que evitou.

Algumas estratégias que a diretriz 2025 aponta como eficazes para melhorar a adesão: simplificar o esquema posológico (um único comprimido por dia é mais fácil de manter do que dois ou três em horários diferentes); usar combinações em dose fixa quando disponíveis e acessíveis; adotar lembretes práticos associados a hábitos já estabelecidos (como escovar os dentes ou tomar café da manhã); e manter a comunicação aberta com o médico sobre efeitos colaterais, porque boa parte dos casos de abandono do tratamento se deve a sintomas que poderiam ser resolvidos com ajuste simples.

O vínculo com o médico de família tem papel documentado na adesão ao tratamento de condições crônicas. Saber que há um profissional que conhece o histórico, acompanha ao longo do tempo e está disponível para ajustar o tratamento quando necessário reduz a probabilidade de abandono e melhora os resultados a longo prazo.


FAQ — Perguntas frequentes

Por que a pressão não cede mesmo tomando o remédio todos os dias? As causas mais comuns são o uso concomitante de substâncias que elevam a pressão (principalmente anti-inflamatórios e descongestionantes), consumo excessivo de sódio ou álcool, e — com menos frequência do que se imagina — hipertensão verdadeiramente resistente. O médico precisa investigar essas possibilidades antes de ajustar a medicação.

Anti-inflamatório como ibuprofeno realmente descontrola a pressão? Sim, especialmente em uso regular. Anti-inflamatórios não esteroides causam retenção de sódio e água e antagonizam o efeito de várias classes de anti-hipertensivos — incluindo inibidores da ECA, BRAs e diuréticos. Quem tem hipertensão deve usar anti-inflamatórios com parcimônia e sempre com orientação médica, preferindo alternativas como paracetamol para dores eventuais.

O que é hipertensão resistente? É quando a pressão permanece acima da meta mesmo com três anti-hipertensivos de classes diferentes em doses adequadas, sendo um deles obrigatoriamente um diurético, e após confirmação de boa adesão. É um diagnóstico de exclusão — a maioria dos casos rotulados como resistência têm, na investigação, uma causa identificável e tratável.

Posso parar o remédio se a pressão estiver controlada? Não por conta própria. A pressão controlada reflete o tratamento funcionando, não a cura da hipertensão. Interromper o medicamento sem orientação médica geralmente leva à elevação da pressão nas semanas seguintes. Redução ou suspensão gradual pode ser considerada pelo médico em situações específicas, com acompanhamento.

Por que preciso tomar dois remédios para pressão? A pressão arterial é regulada por múltiplos mecanismos simultaneamente. Combinar dois medicamentos de classes diferentes em doses moderadas é mais eficaz e melhor tolerado do que aumentar a dose de um único remédio. A diretriz brasileira de 2025 recomenda início com combinação para a maioria dos pacientes com hipertensão nos estágios 1 e 2.

Posso aumentar a dose do remédio por conta própria se a pressão não controlar? Não. Sem saber a causa da pressão não controlada, aumentar a dose pode gerar efeitos adversos sem resolver o problema real. O caminho correto é retornar ao médico com as informações sobre o tratamento atual e os valores domiciliares.


Conclusão

Pressão alta que não controla tem, na maioria das vezes, uma causa identificável — e tratável. Falta de adesão, interferências medicamentosas e comportamentais, e técnica inadequada de aferição são responsáveis pela maior parte dos casos antes que se chegue ao diagnóstico de resistência verdadeira. O tratamento com combinação de anti-hipertensivos não indica gravidade; é a estratégia mais eficaz para atingir as metas recomendadas. E qualquer ajuste no esquema terapêutico — aumentar, reduzir ou trocar — deve ser feito com orientação médica, não de forma unilateral.

Se você está em tratamento e a pressão não está na meta, ou se quer rever o esquema atual com um profissional que conhece o contexto completo do seu caso, entre em contato para agendar uma consulta.

*A imagem que ilustra este artigo foi gerada por inteligência artificial.


REFERÊNCIAS

  1. Sociedade Brasileira de Cardiologia; Sociedade Brasileira de Hipertensão; Sociedade Brasileira de Nefrologia. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250624. https://doi.org/10.36660/abc.20250624
  2. Carey RM, Calhoun DA, Bakris GL, et al. Resistant Hypertension: Detection, Evaluation, and Management: A Scientific Statement From the American Heart Association. Hypertension. 2018;72(5):e53–e90. https://doi.org/10.1161/HYP.0000000000000084
  3. Whelton PK, Carey RM, Aronow WS, et al. 2017 ACC/AHA Guideline for the Prevention, Detection, Evaluation, and Management of High Blood Pressure in Adults. Hypertension. 2018;71(6):e13–e115. https://doi.org/10.1161/HYP.0000000000000065

Dr. Angelo Bannack - Médico de Família

Dr. Angelo Bannack

Dr. Angelo Bannack é médico de família e comunidade em Curitiba, com atuação em consultório particular e atendimento domiciliar. Trabalha com foco em prevenção, check-ups personalizados e acompanhamento contínuo baseado em evidências.

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