Inteligência artificial na saúde: o que a IA pode (e não pode) fazer por você

Dr. Angelo Bannack

Atualizado há 18 dias

Você já perguntou para o ChatGPT o que pode ser aquela dor no peito, aquela mancha na pele ou aquele cansaço que não passa. Ou conhece alguém que fez isso. Não há nada de errado em buscar informação — as pessoas sempre buscaram. O que mudou é que agora a resposta chega em segundos, em linguagem clara, com um tom seguro e detalhado que parece muito com o de um especialista.

E é exatamente aí que mora o problema.

A inteligência artificial generativa — o tipo que está por trás do ChatGPT, do Gemini e de outros — é uma ferramenta poderosa, e eu a uso todos os dias na minha prática clínica. Mas usá-la bem exige entender o que ela é, o que ela faz bem e, principalmente, onde ela falha sem avisar.

📋 O essencial deste artigo

  • A IA generativa já é usada por médicos e pacientes no mundo todo — e tem usos legítimos e úteis na saúde.
  • O maior risco não é a IA errar, mas errar com confiança: ela não distingue o que sabe do que não sabe.
  • A IA não te examina, não conhece seu histórico e não tem como individualizar uma recomendação para o seu caso específico.
  • Usar IA para preparar uma consulta, entender um diagnóstico ou traduzir termos médicos é diferente de usá-la para decidir um tratamento.
  • O médico continua sendo insubstituível onde mais importa: no julgamento clínico que considera a pessoa inteira, não só os sintomas digitados.

O que a IA já faz na medicina — e faz bem

Antes de falar sobre os riscos, é justo reconhecer o que funciona.

Ferramentas de inteligência artificial estão sendo incorporadas à prática médica de formas concretas e, em muitos casos, com resultados impressionantes. Sistemas de IA analisam imagens de retina, eletrocardiogramas e mamografias com precisão comparável à de especialistas experientes. Algoritmos de aprendizado de máquina identificam padrões em grandes bases de dados que seriam invisíveis ao olho humano. Na área administrativa, a IA automatiza documentação clínica e libera tempo para o que realmente importa: o atendimento ao paciente.

Na minha rotina, uso ferramentas de IA diariamente — e ferramentas diferentes para finalidades diferentes. Para dúvidas clínicas diretas, a principal é o OpenEvidence, um assistente treinado especificamente com literatura médica revisada por pares. Quando tenho uma dúvida sobre uma conduta, um medicamento pouco comum ou uma interação que preciso confirmar, ele acessa evidências atualizadas e me devolve respostas fundamentadas — com as referências para eu checar.

Outra ferramenta que uso com frequência é o NotebookLM, do Google. O funcionamento é diferente: em vez de acessar a internet, ele trabalha apenas com os documentos que eu mesmo carrego — diretrizes clínicas, artigos de revistas de referência, textos técnicos específicos. A IA só responde a partir desse material selecionado. Se a informação não estiver nos documentos que carreguei, ela diz que não encontrou. Isso elimina na prática o risco de alucinação, porque não há espaço para inventar fontes. É uma forma de usar a IA com uma camada extra de controle sobre a qualidade do que entra.

As duas são diferentes de perguntar para o ChatGPT: são ferramentas construídas — ou usadas — com restrições que tornam o output mais confiável para o contexto clínico.

Para pacientes, a IA também tem usos legítimos: traduzir termos médicos difíceis, entender o que é uma doença que acabou de ser diagnosticada, organizar perguntas antes de uma consulta ou compreender melhor uma bula. Pesquisa da KFF de 2024 mostrou que cerca de 17% dos adultos americanos usam chatbots de IA ao menos uma vez por mês para informações de saúde — e entre os jovens de menos de 30 anos, esse número chega a um em cada quatro. A IA já está no dia a dia das pessoas. A questão não é proibir, mas entender como usar bem.


O problema central: a IA responde com confiança mesmo quando erra

Aqui está o ponto que considero mais importante — e o menos discutido.

Quando um médico não sabe a resposta para algo, ele diz “não sei, vou verificar” ou “preciso encaminhar para um especialista”. É um sinal de competência, não de fraqueza. A incerteza é reconhecida e comunicada.

A IA generativa não funciona assim. Ela é treinada para produzir respostas fluentes, coerentes e persuasivas — independentemente de ter ou não a informação correta para embasá-las. Quando não sabe a resposta certa, ela não para: ela produz uma resposta que soa correta. Isso tem um nome técnico: alucinação. E é um problema sério em contextos de saúde.

Um caso publicado em 2025 nos Annals of Internal Medicine ilustra bem o que pode acontecer. Um paciente consultou o ChatGPT sobre alternativas ao sal comum por restrição de sódio. A IA sugeriu o brometo de sódio como substituto. O paciente seguiu a orientação, desenvolveu intoxicação por brometo — uma condição grave — e precisou ser hospitalizado. O ChatGPT estava errado, mas não avisou que estava errado. Respondeu com a mesma segurança de quando acerta.

Outro fenômeno documentado é a fabricação de referências científicas. Quando solicitada a citar fontes, a IA pode gerar citações que parecem completamente legítimas — com autores, títulos de revistas, volumes e páginas — mas que simplesmente não existem. Um estudo publicado na revista Cureus identificou altas taxas de referências fabricadas ou imprecisas em textos médicos gerados por ChatGPT. Para quem não tem como checar cada fonte, é impossível saber a diferença.

Isso não significa que a IA é inútil. Significa que ela exige um interlocutor crítico — alguém que saiba quando confiar e quando questionar a resposta.


A IA não te examina, não te conhece e não tem contexto

Há um segundo problema, diferente do anterior, e igualmente importante.

Mesmo que a IA tivesse acesso a todas as informações médicas corretas do mundo, ela ainda não conseguiria fazer o que um médico faz numa consulta. Não porque seja menos inteligente — mas porque a consulta médica envolve dimensões que texto digitado não captura.

Quando você descreve seus sintomas para uma IA, você está oferecendo uma versão verbal e filtrada do que está acontecendo. Você escolhe o que contar, como contar e o que omitir — muitas vezes sem perceber. O médico, por outro lado, observa: a cor da pele, a forma de respirar, a postura, o tom de voz, o que a pessoa evita mencionar. Examina com as mãos e com instrumentos. Faz perguntas que o paciente não pensaria em responder espontaneamente.

Além disso, a IA não tem acesso ao histórico clínico. Não sabe que você tomou um antibiótico há três semanas, que sua mãe teve aquela doença, que você está sob um estresse particular neste mês. Não sabe que o remédio que parece indicado para o seu sintoma está contraindicado por causa de outro medicamento que você usa. Cada resposta da IA é construída a partir de um texto isolado, sem o contexto que transforma informação em decisão clínica adequada.

É a diferença entre saber o que uma doença é — o que a IA faz muito bem — e saber se você, especificamente, tem essa doença e o que fazer a respeito. Isso exige um médico.

Esse raciocínio é o mesmo que sustenta a medicina baseada em evidências: as melhores evidências científicas precisam ser aplicadas com julgamento clínico individualizado. Evidência sem julgamento não é medicina — é receita de bolo.

É também o que diferencia o médico de família de uma ferramenta de busca sofisticada: o acompanhamento longitudinal, o conhecimento do contexto de vida do paciente, a capacidade de integrar informações ao longo do tempo.


Como usar a IA de forma inteligente no cuidado com a saúde

A IA não vai desaparecer da saúde — nem deveria. A questão é saber para o que ela serve e para o que não serve.

O que faz sentido usar:

Preparar a consulta médica é um dos melhores usos. Antes de vir ao consultório, perguntar para a IA “o que devo contar ao médico sobre esses sintomas?” ou “que perguntas devo fazer sobre esse diagnóstico?” ajuda a aproveitar melhor o tempo da consulta e a não esquecer informações importantes.

Entender termos médicos é outro uso genuinamente útil. Um laudo de exame com linguagem técnica, o nome de uma doença que acabou de ser diagnosticada, a bula de um medicamento com texto inacessível — a IA traduz isso bem e com precisão razoável para informações gerais estabelecidas.

Buscar informações educativas sobre condições conhecidas também funciona. Se você já tem diagnóstico de hipertensão arterial e quer entender melhor como a doença funciona, a IA pode complementar o que o médico explicou. O que ela não deve é substituir a orientação médica sobre o tratamento do seu caso específico.

O que não delegar à IA:

Diagnóstico é o principal. Nenhuma resposta gerada por IA — por mais detalhada e convincente que pareça — substitui uma avaliação clínica. Sintomas iguais podem ter causas completamente diferentes em pessoas diferentes. O diagnóstico correto depende de informações que a IA não tem acesso.

Decisões sobre iniciar, trocar ou parar medicamentos também. Isso inclui a tentação de perguntar para a IA se pode parar o remédio de pressão porque a pressão está controlada, ou se pode tomar o antibiótico que sobrou da última vez. São decisões que parecem simples, mas têm nuances clínicas importantes — e a IA não tem como avaliá-las corretamente para o seu caso.

Situações de urgência merecem atenção especial. Um estudo publicado em Nature Medicine em 2026 avaliou o ChatGPT Health — versão voltada para saúde lançada pela OpenAI — e identificou que a ferramenta subestimou a gravidade de metade das emergências médicas testadas. Em situações que exigem avaliação imediata, a IA não é o caminho.

A decisão sobre quais exames preventivos fazer, com qual frequência e a partir de qual idade, é outro exemplo de contexto onde a conversa com um médico — e não com uma IA — faz diferença real. Esse é justamente o tipo de raciocínio que orienta um bom check-up médico.

E quando o assunto for avaliação presencial, é importante lembrar que mesmo a telemedicina — que também usa tecnologia e tem limitações próprias — é conduzida por um médico que aplica julgamento clínico. É diferente de uma IA.


FAQ — Perguntas frequentes

O ChatGPT pode dar diagnóstico médico? A IA pode descrever doenças e listar possibilidades a partir de sintomas relatados — e, em alguns estudos, chega a taxas altas de acerto em cenários controlados. Mas um diagnóstico médico real depende de exame físico, histórico completo, contexto clínico e julgamento individualizado. O ChatGPT não tem acesso a nenhum disso. Usar a IA para diagnóstico sem avaliação médica é um risco desnecessário.

É perigoso usar IA para buscar informações de saúde? Depende de como e para quê. Buscar informações gerais, entender termos médicos ou preparar perguntas para a consulta são usos seguros e úteis. O perigo está em usar a IA para tomar decisões clínicas — iniciar ou parar medicamentos, interpretar exames, decidir se um sintoma precisa de atendimento urgente. Nesses casos, a margem de erro é alta e as consequências podem ser sérias.

Médicos usam IA no consultório? Sim, e cada vez mais. Pesquisa da Associação Médica Americana de 2025 mostrou que 66% dos médicos americanos já usam alguma ferramenta de IA — ante 38% em 2023. O uso, porém, é diferente do uso do paciente: ferramentas clínicas como o OpenEvidence são treinadas com literatura médica revisada, têm fontes verificáveis e são usadas como apoio ao julgamento do médico, não como substituto.

A IA vai substituir o médico no futuro? Para tarefas específicas e bem delimitadas — análise de imagens, triagem de exames, auxílio administrativo — a IA já substitui etapas do trabalho médico e, em alguns contextos, com vantagens reais. Mas a medicina envolve dimensões que vão além do processamento de informação: a relação de confiança, o julgamento contextualizado, a comunicação de más notícias, a gestão da incerteza com responsabilidade. Essas dimensões não têm substituto tecnológico à vista.

Como saber se a informação que a IA me deu é confiável? Algumas perguntas ajudam: a resposta cita fontes verificáveis? Você consegue checar essas fontes? A informação é consistente com o que seu médico disse? A IA admite limitações ou incerteza, ou responde com segurança absoluta mesmo sobre assuntos complexos? Desconfie de respostas que parecem completas demais para uma pergunta genuinamente difícil.

Qual a diferença entre o ChatGPT e ferramentas de IA médica como o OpenEvidence? O ChatGPT é um modelo de linguagem de propósito geral — treinado para produzir texto coerente sobre praticamente qualquer assunto. Ferramentas como o OpenEvidence são treinadas especificamente com literatura médica revisada por pares, têm restrições de escopo e fornecem referências verificáveis para cada resposta. São ferramentas de suporte clínico profissional, não chatbots de uso geral.


Conclusão

A inteligência artificial está transformando a medicina — e isso é, em boa parte, positivo. Ela amplia o acesso a informação, apoia decisões clínicas, automatiza tarefas repetitivas e tem potencial real de melhorar resultados em saúde.

Mas a IA generativa tem uma característica que a torna particularmente traiçoeira em contextos médicos: ela responde com confiança mesmo quando erra. Não avisa quando está incerta. Não distingue o que sabe do que está apenas inferindo. E não tem como considerar o contexto individual de cada pessoa.

Usá-la bem exige saber exatamente o que pedir a ela — e o que reservar para o médico. Não como uma limitação da tecnologia, mas como uma forma inteligente de aproveitar o melhor dos dois mundos.

Se você quer discutir como integrar informações que encontrou com avaliação clínica adequada ao seu caso, entre em contato para agendar uma consulta.

A imagem que ilustra este artigo foi gerada por inteligência artificial.


REFERÊNCIAS

  1. Chustecki M. Benefits and Risks of AI in Health Care: Narrative Review. Interact J Med Res. 2024;13:e53616. https://doi.org/10.2196/53616
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  3. Eichenberger E, Nguyen H, McDonald R, et al. A Case of Bromism Influenced by Use of Artificial Intelligence. Ann Intern Med Clin Cases. 2025;4(8). https://doi.org/10.7326/aimcc.2024.1260
  4. Bhattacharyya M, Miller VM, Bhattacharyya D, Miller LE. High rates of fabricated and inaccurate references in ChatGPT-generated medical content. Cureus. 2023;15:e39238. https://doi.org/10.7759/cureus.39238
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  6. KFF Health Misinformation Tracking Poll. 2024. https://www.kff.org
  7. American Medical Association. Physicians and AI: 2025 Survey. https://www.ama-assn.org

Dr. Angelo Bannack - Médico de Família

Dr. Angelo Bannack

Dr. Angelo Bannack é médico de família e comunidade em Curitiba, com atuação em consultório particular e atendimento domiciliar. Trabalha com foco em prevenção, check-ups personalizados e acompanhamento contínuo baseado em evidências.

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