Era uma segunda-feira de um jogo decisivo. Recebi no consultório, alguns dias depois, um paciente meu de uns 50 anos contando o que tinha acontecido: o time dele precisava da vitória para prosseguir na competição, e no meio da torcida — faltavam dois minutos, o time perdia por um gol — ele sentiu um aperto forte no peito, como se alguém estivesse apoiando o cotovelo ali. Achou que era só nervoso. Tomou um copo d’água, sentou, e o desconforto passou em uns três minutos. “Foi emoção, doutor, não foi?” Bom, às vezes é só isso mesmo. Mas eu pedi um eletrocardiograma e um perfil lipídico, porque a história dele — hipertensão mal controlada havia anos, tabagismo, pai que infartou aos 58 — não me deixava simplesmente confirmar o que ele queria ouvir.
Esse tipo de cena se repete bastante durante grandes torneios de futebol, e não é força de expressão. Existe ciência séria documentando que jogos de alta tensão aumentam o risco de eventos cardíacos de forma mensurável. Este artigo não é sobre o que é um infarto em si — sobre isso eu já contei um caso inusitado que ocorreu num plantão de Natal, que detalha toda a fisiologia da doença coronariana. Este é sobre um gatilho específico: a emoção de um jogo decisivo, e por que ela importa tanto para quem já carrega, sem saber, uma fragilidade no coração.
Boa leitura.
📋 O essencial deste artigo
- Estudos mostram que jogos de futebol de alta tensão aumentam de forma mensurável o risco de eventos cardíacos agudos.
- O mecanismo é a liberação de hormônios do estresse, que sobrecarrega um coração já fragilizado.
- Quase metade das pessoas que sofrem esses eventos já tinha doença coronariana conhecida — e muitas, sem saber que tinham.
- Saber seu risco real exige avaliação médica, não suposição.
Não é força de expressão: o que os estudos mostram
A primeira vez que essa associação foi medida de forma robusta foi durante a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. Pesquisadores publicaram no New England Journal of Medicine o acompanhamento, em tempo real, de todas as emergências cardiovasculares atendidas na região de Munique durante o torneio, comparando com um período sem jogos. O achado mais didático não foi nenhum número de risco relativo complicado — foi simples assim: entre as pessoas que tiveram um evento cardíaco nos dias de jogo da seleção alemã, quase metade (47%) já tinha diagnóstico conhecido de doença coronariana, contra menos de um terço (29%) nos dias normais.
Traduzindo: o jogo não cria a doença do nada. Ele só acende a luz sobre uma fragilidade que, para muita gente, já estava lá, quieta, esperando o gatilho certo.
O mesmo estudo mostrou que a incidência de emergências cardíacas chegou a ser 2,66 vezes maior nos dias de jogo da Alemanha, com o pico concentrado nas duas primeiras horas de partida. Quando os pesquisadores olharam só para os casos mais graves, o aumento foi de praticamente 2,5 vezes nos infartos clássicos (com alteração característica no eletrocardiograma) e de mais de 3 vezes nas arritmias com sintomas importantes.
Esse padrão se repetiu em outros países e outras décadas. Na Holanda, o dia em que a seleção foi eliminada de uma Eurocopa nos pênaltis teve aumento mensurável de mortes por doença coronariana entre os homens. Na Inglaterra, a eliminação da Copa de 1998 contra a Argentina (também nos pênaltis) foi seguida por um salto de 25% nas internações por infarto — um aumento que não apareceu em outros diagnósticos, nem nos dias de outros jogos da própria seleção inglesa. Durante a Copa de 2014, a Alemanha teve mais internações por infarto do que no mesmo período do ano anterior. E revisões que juntaram dezenas desses estudos — Copas, Eurocopas, ligas nacionais — confirmaram a mesma coisa: assistir futebol de alta tensão aumenta o risco de eventos cardiovasculares, em homens e em mulheres.
O que acontece no corpo durante um jogo tenso
O corpo não distingue muito bem uma ameaça de verdade de uma ameaça emocional intensa. Pra ele, a iminência de perder um jogo decisivo pode acionar quase o mesmo alarme que um perigo físico real dispararia.
Esse alarme envolve a liberação de adrenalina e cortisol, os hormônios do estresse. Eles fazem o coração bater mais rápido, a pressão arterial subir e a força de contração do músculo cardíaco aumentar — basicamente, o coração é convocado a trabalhar mais forte, de repente. Num coração com coronárias (as artérias que alimentam o próprio músculo cardíaco) limpas, esse aumento de demanda é absorvido sem drama: chega mais sangue, chega mais oxigênio, e pronto.
O problema aparece quando essas coronárias já estão parcialmente entupidas por placas de gordura — mesmo que isso nunca tenha dado sintoma nenhum no dia a dia. Aí, o aumento súbito de demanda não encontra a mesma oferta de sangue, e a combinação de mais batimentos, mais pressão e menos espaço para o sangue passar pode bastar para desencadear um infarto. Em alguns casos, o próprio estresse hormonal favorece o rompimento de uma dessas placas, formando um coágulo que entope a artéria de forma mais abrupta ainda.
Existe até um fenômeno com nome curioso para isso: a síndrome do coração partido (cardiomiopatia de Takotsubo), em que o coração reage a um choque emocional forte — a derrota inesperada do time, por exemplo — com sintomas e exames muito parecidos com os de um infarto, mas sem entupimento nenhum de artéria. É rara, mas já foi descrita em torcedores depois de jogos importantes.
O coração reage ao que sentimos, não só ao que fazemos com o corpo.
Por que o risco não é igual para todo mundo
Volto ao dado mais importante: quase metade das pessoas que tiveram eventos cardíacos durante os jogos já sabia que tinha doença coronariana. A outra metade, presume-se, não sabia — ou sabia de fatores de risco isolados (pressão alta, colesterol, diabetes, tabagismo) sem nunca ter investigado de verdade a saúde das próprias artérias.
Esse padrão se repete em praticamente qualquer cenário de estresse físico ou emocional súbito, dentro ou fora de uma sala de estar. Quem leu a história do Papai Noel que infartou lembra do estereótipo que montei ali: homem, idoso, sedentário, fumante, diabético, hipertenso, anos sem check-up. O esforço físico de carregar um trenó foi o gatilho dele. Aqui, o gatilho é emocional. Mas o alvo costuma ser o mesmo coração — aquele que já vinha sendo negligenciado havia tempo.
Isso não quer dizer que todo torcedor de coração saudável deva temer o próximo pênalti. Quer dizer que, para quem já tem fatores de risco conhecidos, histórico familiar relevante, ou simplesmente nunca investigou como estão as próprias artérias, um momento de emoção forte pode ser o gatilho que revela um problema que já estava lá.
Sinais de alerta durante o jogo
Vale saber diferenciar o “nervoso normal” do sinal que merece atenção. Costumam sugerir problema cardíaco:
- Desconforto no peito que dura mais de alguns minutos, descrito como pressão, aperto ou peso (não uma pontada rápida)
- Desconforto que não muda com a posição do corpo ou com a respiração
- Falta de ar junto com o desconforto
- Suor frio intenso, sem explicação por calor ou esforço
- Dor que se espalha para braço, mandíbula ou costas
Se esses sinais aparecerem — durante um jogo ou em qualquer outro momento — procure um pronto atendimento sem demora. Tempo é músculo.
Quando o seu caso muda tudo
Alguns fatores aumentam bastante a chance de um momento de forte emoção virar um evento cardíaco real:
- Histórico pessoal de doença coronariana, mesmo estável e sem sintomas recentes
- Pressão alta, diabetes ou colesterol elevado não controlados, ou nunca investigados
- Tabagismo, atual ou com histórico relevante
- Histórico familiar de infarto ou morte súbita em parentes de primeiro grau, principalmente antes dos 55 (homens) ou 65 anos (mulheres)
- Sedentarismo associado a excesso de peso
Quem se encaixa em um ou mais desses pontos tem uma pergunta para se fazer antes do próximo jogo decisivo: eu sei, de fato, como estão minhas artérias — ou estou só supondo que está tudo bem?
Conclusão
A torcida nervosa diante de um jogo decisivo é, para a maioria das pessoas, só isso: nervosismo. Mas a ciência mostra, de forma consistente em diferentes países e diferentes torneios, que esse mesmo estresse pode ser o gatilho que revela uma doença cardíaca que já estava ali, quieta, esperando o momento certo.
O meu paciente do início deste artigo fez os exames. O eletrocardiograma veio normal, mas o perfil lipídico mostrou colesterol bem acima do esperado, e a pressão, medida de novo com calma, confirmou a hipertensão que ele já desconfiava ter. Não foi um infarto naquele dia. Mas foi, sem dúvida, um aviso que valeu a pena ouvir.
A boa notícia é que esse risco pode ser conhecido — e gerenciado — antes que um jogo decisivo precise descobrir por você. Avaliar o histórico, os fatores de risco e, quando necessário, a saúde real das coronárias é justamente o papel de um check-up individualizado para a sua história.
Um forte abraço.
Perguntas frequentes
Assistir a um jogo de futebol pode realmente causar um infarto?
Estudos científicos mostram que jogos de futebol de alta tensão emocional estão associados a um aumento mensurável no número de infartos e arritmias cardíacas, especialmente em pessoas que já têm doença coronariana conhecida ou fatores de risco não controlados. O jogo não causa a doença, mas pode ser o gatilho que revela uma fragilidade cardíaca já existente.
Quem corre mais risco de ter um problema cardíaco durante um jogo decisivo?
Pessoas com doença coronariana já diagnosticada, hipertensão, diabetes ou colesterol elevado não controlados, histórico de tabagismo, histórico familiar de infarto precoce ou sedentarismo associado a excesso de peso têm risco maior. Quanto mais desses fatores presentes, maior a atenção necessária.
Quais sinais durante um jogo indicam que pode ser algo além do nervosismo normal?
Desconforto no peito que dura mais de alguns minutos, descrito como pressão ou aperto, que não muda com a posição do corpo, acompanhado de falta de ar, suor frio intenso ou dor que se espalha para braço, mandíbula ou costas, são sinais de alerta que merecem atendimento de urgência imediato.
Referências
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*A Imagem que ilustra esse artigo foi gerado por inteligência artificial.
