Um dos motivos para alguém procurar um médico é para a realização do chamado check-up. Diariamente recebo vários pacientes exigindo esse ou aquele exame, transformando o consultório numa verdadeira prateleira de saúde com um cardápio variado para todos os gostos. Na visão de muitas pessoas, ir ao médico e pedir um monte de exames é uma forma de garantir sua saúde. Mas será que fazer um check-up médico é isso mesmo? Fazer mais exames é sempre a melhor coisa? Uma consulta uma vez por ano e tendo os exames com os resultados dentro do padrão considerado normal é o mais adequado?
Neste artigo tento responder a essas e outras perguntas. No final discuto sobre os exames recomendados para cada idade e também os problemas em se fazer exames desnecessários.
Boa leitura.
📋 O essencial deste artigo
- Check-up é uma avaliação preventiva individualizada — não uma lista fixa de exames.
- Mais exames não significa check-up melhor. Exames mal indicados causam dano.
- A partir dos 35–40 anos, o ideal é fazer check-up anual com um médico de família.
- As recomendações deste artigo seguem a USPSTF, principal referência de medicina preventiva baseada em evidências.
- Quem tem histórico familiar de doenças deve iniciar rastreamentos antes — em geral, 10 anos mais cedo.
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Vídeo: CHECK-UP médico: devo mesmo fazer?

O que é um check-up médico?
Os cuidados de saúde de qualidade incluem dois elementos fundamentais: tratamento apropriado para doenças existentes e cuidados preventivos adequados para tentar amenizar problemas futuros de saúde [CDC]. O termo check-up (checkup ou ainda checape) significa algo como checar ou conferir. Na medicina é utilizado para designar justamente os cuidados preventivos. E como preventivo não está incluído apenas um conjunto de exames para avaliar se há algum problema de saúde, isto é mais um rastreio de doenças pré-existentes do que a prevenção delas. É também um momento de o médico conversar e entender os hábitos de vida do paciente e tentar propor medidas de intervenção, de forma a evitar doenças futuras ou reduzir os seus potenciais danos. O aconselhamento para parar de fumar é um bom exemplo de prevenção de doenças. A medida da glicose em jejum é um exemplo de rastreio de uma doença já existente, no caso o diabetes.
O principal motivo de um check-up médico é detectar alguma condição que possa ser modificada objetivando alguma melhora, seja reduzindo sintomas ou o aparecimento de outras doenças, ou ainda aumentando a expectativa de vida. Detectar precocemente que o colesterol está elevado e realizar mudanças de estilos de vida, como fazer atividade física e reduzir o consumo de gorduras – especialmente as saturadas, pode ajudar a evitar um infarto ou AVC (Acidente Vascular Cerebral), aumentando o tempo de vida e reduzindo a probabilidade de sequelas muitas vezes graves.
O que diz a ciência sobre o check-up médico?
Muitos estudos são realizados para tentar definir se um determinado exame é útil para detectar precocemente alguma condição modificável ou ainda a existência de alguma doença que possa ser tratada precocemente. As principais dificuldades são saber quando e com que frequência os exames devem ser realizados, que exames realizar, que condições tratar e quando tratar. Como a medicina baseada em evidências é bastante complexa e muitas vezes mal compreendida inclusive pelos médicos, algumas iniciativas surgem para tentar facilitar esse processo. São inúmeras as sociedades e associações médicas que fazem guias e diretrizes com recomendações de exames de rotina e tratamento de doenças. No Brasil podemos citar algumas sociedades específicas como a Sociedade Brasileira de Cardiologia, que têm várias diretrizes para rastreio e prevenção de doenças cardíacas, como hipertensão e dislipidemias, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia que têm recomendações sobre rastreios de câncer de mama e colo do utero (liberados apenas para médicos associados) e a Sociedade Brasileira de Urologia com diretrizes sobre rastreio de câncer de próstata.
O Ministério da Saúde brasileiro também conta com um conjunto de diretrizes dos mais variados assuntos.
Porém, a iniciativa independente que contempla o maior número de temas de saúde além de ser constantemente atualizada é a U.S. Preventive Services Task Force (USPSTF). Criada em 1984, a USPSTF é um grupo independente de especialistas composta por 16 membros voluntários que vêm das áreas de medicina preventiva e atenção primária, incluindo medicina interna, medicina de família, pediatria, saúde comportamental, obstetrícia/ginecologia e enfermagem. O grupo trabalha fazendo recomendações baseadas em evidências sobre serviços preventivos clínicos, como exames, serviços de aconselhamento e medicamentos preventivos.
As recomendações que seguem nesse artigo são as reforçadas pela USPSTF.
Quando fazer um check-up?
Não há um consenso sobre quando fazer e nem sobre a periodicidade, porém parece ser razoável que pessoas saudáveis (que não tenham nenhum problema de saúde) procurem um médico uma vez por ano a partir dos 40 anos de idade para a realização de check-ups. Pessoas mais jovens podem e devem procurar um médico antes disso, principalmente para os rastreios de cancer de colo de útero nas mulheres, rastreio de doenças sexualmente transmissíveis em jovens, e eventualmente rastreio de alguma outra doença (comorbidade), porém não há estudos definitivos sobre a periodicidade de check-ups antes dos 40 anos de idade.
Pessoas que têm alguma doença pré-existente (câncer, diabetes, colesterol alto, entre outras) em algum parente de 1º grau (pai, mãe, irmãos) deve procurar um médico 10 anos antes (esse é o tempo padrão mais encontrado nos estudos) do aparecimento da doença no familiar. Por exemplo, uma mulher cuja mãe teve um câncer de mama descoberto aos 45 anos de idade, pode se beneficiar de fazer um rastreio para cancer de mama a partir dos 35 anos de idade.
Se você já tem uma doença conhecida, a periodicidade de consulta com o médico pode ser outra. Recomendo que consulte seu médico e siga sua recomendação.
Qual médico procurar para fazer um check-up?
A medicina atual é bastante fragmentada — há médicos especializados em cada órgão do corpo, cada doença, cada faixa etária. Para doenças específicas e situações de alta complexidade, essa especialização é fundamental. Mas para o check-up periódico, o raciocínio é diferente.
O check-up não é sobre um órgão. É sobre você — sua história, seus hábitos, sua família, seus riscos individuais. Por isso, o profissional mais indicado para realizá-lo é alguém que consiga enxergar esse conjunto: o médico de família e comunidade.
O médico de família é o especialista em atenção primária — formado para atender desde crianças até idosos, para tratar tanto problemas agudos do dia a dia quanto condições crônicas, e especialmente para conduzir consultas preventivas baseadas em evidências. É o profissional que mais trabalha com as diretrizes de rastreio preventivo — como as do USPSTF e da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC) — exatamente porque o check-up é parte central de sua prática diária.
Especialistas como cardiologistas, endocrinologistas ou urologistas têm papel insubstituível quando há um problema já identificado. Para o check-up preventivo, porém, o foco restrito pode ser uma limitação: um cardiologista faz um excelente rastreio cardiovascular, mas o check-up envolve também rastreio de cânceres, avaliação de saúde mental, revisão vacinal e muito mais. Além disso, é natural que cada especialista tenda a solicitar exames da sua área — inclusive alguns que não têm indicação para pessoas sem sintomas. Um exemplo frequente é o teste ergométrico: apesar de aparecer em muitos pacotes de check-up, sua principal indicação é a investigação de sintomas como dor no peito ou falta de ar. Em pessoas sem esses sintomas, as próprias diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia e do USPSTF não recomendam o exame de rotina — e um resultado alterado pode desencadear uma cadeia de outros procedimentos com mais riscos do que benefícios.
O médico de família, por formação e vocação, está habituado a esse olhar amplo — e a saber quando não pedir exames, o que é tão importante quanto saber quando pedir.
Outro diferencial importante é o acompanhamento longitudinal: quando o médico te conhece ao longo do tempo, sabe o que mudou desde a última consulta, conhece seu histórico familiar e seus exames anteriores. Esse contexto acumulado é algo que nenhum pacote de exames consegue replicar — e é ele que permite pedir o que é realmente necessário, nem mais, nem menos.
Independentemente de qual médico você escolha, o mais importante é que seja alguém em quem você confie, que te escute com atenção e que consiga adaptar as recomendações gerais — baseadas em populações — para as suas particularidades. Sobre isso escrevi mais no artigo sobre a Medicina Sem Pressa.
Você mora em Curitiba e quer fazer seu check-up?
Ver como funciona o check-up com o Dr. Angelo →Quais exames devem ser realizados?
De forma geral, o check-up contempla as seguintes categorias de rastreamento:
- Risco cardiovascular: pressão arterial, perfil lipídico e rastreamento de diabetes
- Cânceres prevalentes: mama, intestino, colo do útero, próstata (conforme sexo e idade)
- Infecções sexualmente transmissíveis: HIV, sífilis, hepatites B e C
- Saúde mental: rastreamento de depressão, ansiedade, abuso de álcool e uso de drogas — recomendado pela USPSTF para todos os adultos em toda consulta médica
- Saúde óssea: densitometria para mulheres a partir dos 65 anos e em casos específicos antes disso
- Calendário vacinal: atualização de vacinas do adulto, incluindo influenza, tétano, herpes-zóster, pneumocócica e VSR conforme faixa etária
Os exames específicos — com idades de início, periodicidade e critérios para antecipar o rastreamento — estão detalhados no artigo complementar:
👉 Check-up médico: quais exames pedir? Guia baseado em evidências
Além dos exames, as mudanças de estilo de vida são parte indissociável de qualquer check-up bem feito. Não fumar, praticar atividade física regular, limitar o consumo de álcool, evitar exposição excessiva ao sol e manter peso adequado são intervenções com evidência de redução de risco para cânceres, doenças cardiovasculares e diversas outras condições — e o aconselhamento sobre esses hábitos deve acontecer dentro da consulta, não apenas na prescrição de exames.
Exames com pouca evidência de serem pedidos de rotina
Alguns exames aparecem com frequência em check-ups mas não têm evidência de benefício para pessoas sem sintomas e sem fatores de risco específicos. Entre os mais comuns estão o eletrocardiograma de rotina, o ultrassom abdominal preventivo, a dosagem de vitamina D em assintomáticos, o TSH sem indicação clínica, marcadores tumorais (CEA, CA-125, CA-19.9) e o teste ergométrico em pessoas sem doença cardiovascular conhecida.
O caso do teste ergométrico merece atenção: apesar de aparecer em muitos pacotes de check-up, sua principal indicação é a investigação de sintomas como dor no peito ou falta de ar. Em pessoas sem esses sintomas, os estudos não demonstram benefício — e um resultado positivo pode desencadear uma cadeia de outros exames e procedimentos com mais riscos do que a ausência do teste.
Para uma análise detalhada de cada um desses exames — incluindo os testes genéticos de predisposição, que cresceram muito nos últimos anos —, leia a seção específica no artigo:
👉 O que geralmente não precisa ser pedido em check-ups
Qual o problema de fazer exames não recomendados?
Exames não são perfeitos e estão sujeitos a resultados falso positivos. Além disso os valores de referência são baseados em médias da população em geral consideradas “saudáveis”. A simples ansiedade gerada pela expectativa do resultado de um exame já pode ser considerada para a tomada de decisão sobre realizar ou não um exame. Após o resultado de um exame positivo, uma cadeia de eventos é disparada. Outros exames são pedidos, às vezes invasivos, com procedimentos que perfuram o corpo para obter amostras para biópsias em microscópios, ou até mesmo cirurgias diagnósticas com necessidade de sedação. Quando bem recomendado, é um preço a se pagar, mas se o exame foi mal indicado, esses procedimentos podem trazer sequelas graves.
Lembro do caso de um colega médico que passou por um rastreio de obstrução de carótidas (os vasos que levam sangue para o cérebro). Era um paciente jovem, pedalava todos os finais de semana mais de 80km, praticava natação e trabalhava diariamente em seu consultório. Não tinha indicação alguma de tal exame, porém o laudo apresentou uma obstrução significativa de uma das artérias, o que acabou motivando uma cirurgia de desobstrução. Era uma cirurgia de risco, pois poderia haver a liberação de um coágulo provocando um AVC, e foi exatamente o que ocorreu. O médico ficou com sequelas motoras em parte de seu corpo, além de dificuldade na fala. Nunca mais nadou, nem andou de bicicleta. Este tipo de intervenção médica que acaba prejudicando o paciente é chamado de iatrogenia. Se tiver interesse, leia meu texto sobre a iatrogenia, com o relato de outro caso que ilustra melhor o tema.
Além disso, alguns rastreios em pacientes idosos podem trazer mais sequelas e consequências danosas do que benefícios reais. É difícil saber a hora de parar de fazer os check-ups, mas alguns estudos apontam poucos benefícios quando a expectativa de vida é menor do que 10 anos. Porém, entendo que essa é uma decisão que deve ser compartilhada com o médico, pois cada caso é um caso.
Conclusão
Um check-up médico consiste em uma consulta médica, contemplando desde a conversa com o médico, o exame físico com aferição de pressão arterial, verificação de peso, entre outros, e a solicitação de um conjunto de exames que deve ser individualizado para cada pessoa. Parece ser razoável procurar um médico anualmente a partir dos 40 anos de idade para a realização do check-up. Optar por um médico generalista como um Médico de Família pode ser uma opção, mas o mais importante é ter um médico em que se confie. Alguns exames, quando mal solicitados, podem acabar trazendo malefícios com diagnósticos equivocados ou uma sequência de outros exames desnecessários.
Se ainda ficou com dúvida, pergunte nos comentários ou entre em contato diretamente. Se você está em Curitiba e quer agendar um check-up, conheça como funciona e agende sua consulta.
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Até a próxima.
Perguntas frequentes sobre check-up médico
Com que frequência devo fazer check-up médico?
Para adultos saudáveis, a partir dos 35-40 anos recomenda-se check-up anual. Antes dessa idade, a frequência depende dos sintomas e da história médica. Quem tem doença crônica deve seguir o calendário definido pelo médico assistente.
Qual médico devo procurar para fazer meu check-up?
O médico de família e comunidade é o mais indicado para coordenar o check-up preventivo. Ele avalia a saúde de forma integral, considera histórico familiar e hábitos de vida, e solicita apenas os exames realmente necessários para cada pessoa, evitando exames desnecessários.
Quais exames devem ser feitos no check-up?
Não existe uma lista única. Os exames são definidos de acordo com a idade, o histórico médico e os fatores de risco individuais de cada pessoa. De forma geral, o check-up inclui avaliação cardiovascular, rastreamento de cânceres prevalentes, revisão do calendário vacinal, rastreamento de ISTs e avaliação de saúde mental. Para uma lista detalhada com idades de início, periodicidade e critérios de antecipação, leia o guia completo: Check-up médico: quais exames pedir?
A partir de que idade devo começar a fazer check-up?
A partir dos 35-40 anos, o check-up anual é recomendado pela maioria das diretrizes. Quem tem histórico familiar de doenças deve iniciar rastreamentos 10 anos antes da idade em que o familiar foi diagnosticado.
Onde fazer check-up médico em Curitiba?
O Dr. Angelo Bannack realiza check-ups individualizados no consultório Nutropar, bairro Bigorrilho, Curitiba-PR. Atendimento presencial sem pressa, baseado em evidências. Aceita Unimed e particular. Agendamento pelo site ou WhatsApp.
*Imagem que ilustra este artigo: © DragonImages via canva.com.

Muito bom, Ângelo!
Admiro a tua disposição de sempre escrever! Continua! Certamente os textos ajudam a esclarecer dúvidas!
Abraços.
Obrigado pelos incentivos Marilda. Espere poder contribuir um pouco com a saúde da população. Abração.
Gosto muito de seus artigos. É bom ler sobre dúvidas que temos sobre a saúde com quem trabalha diretamente com pacientes. Principalmente, nos dias atuais que nos vem uma enxurrada de reportagens e que, muitas vezes, ficamos com dúvidas e os autores apenas despejam seus conhecimentos sem nos dar a oferta de perguntas sobre o assunto.
Obrigado Claudete. A Internet foi um grande avanço na popularização do acesso a informação. O grande problema é obter informações confiáveis. Estou me esforçando para tentar trazer textos com conteúdo baseado em evidências e que sejam realmente úteis. Um forte abraço.