Segurança de vacinas: o que acontece quando um sinal de alerta é detectado

Dr. Angelo Bannack

Atualizado hoje

Quando uma vacina é suspensa e a notícia circula, a primeira reação de muita gente é de alarme — e faz sentido. Suspensão é uma palavra pesada. O que poucos sabem é que, na maioria das vezes, a suspensão não é evidência de que a vacina falhou. É evidência de que o sistema de segurança funcionou.

Entender como esse sistema opera — o que ele detecta, como ele age e o que conclui — muda completamente a forma de ler esse tipo de notícia.

📋 O essencial deste artigo

  • Ensaios clínicos de fase 3, mesmo os maiores, não conseguem detectar eventos adversos que ocorrem em menos de 1 a cada 10.000 vacinados — para isso existe a vigilância pós-comercialização.
  • Um sinal de alerta é uma associação temporal entre vacinação e evento adverso. Ele justifica investigação, mas não confirma que a vacina causou o problema.
  • A suspensão temporária de uma vacina é um procedimento padrão de segurança — não uma admissão de que o imunizante é perigoso.
  • O caso histórico da RotaShield (1999) mostra que o sistema funciona: o sinal foi detectado, investigado, confirmado — e a vacina foi retirada. Anos depois, novas vacinas contra a mesma doença foram desenvolvidas com perfil de segurança aprimorado.
  • A suspensão de uma vacina específica não tem implicação sobre as demais vacinas do calendário nacional, que possuem composições e perfis de segurança independentes.

Vacinas passam por testes rigorosos — mas o processo não termina na aprovação

Antes de chegar ao braço de qualquer pessoa, uma vacina percorre um longo caminho. Os ensaios clínicos são conduzidos em fases progressivas, com populações crescentes: fase 1 com dezenas de voluntários focada em segurança básica, fase 2 com centenas avaliando resposta imune, e fase 3 com dezenas de milhares de participantes para avaliar eficácia e segurança em escala maior.

Esse processo é rigoroso. Mas tem um limite inerente.

Ensaios clínicos de fase 3, mesmo os maiores, incluem dezenas de milhares de participantes — número suficiente para detectar efeitos adversos comuns, mas insuficiente para identificar eventos extremamente raros. Para esses, existe a vigilância pós-comercialização (fase 4), que monitora milhões de pessoas após a aprovação e incorporação da vacina ao calendário.

Em termos práticos: um evento que ocorre em 1 a cada 50.000 pessoas vacinadas simplesmente não aparece num ensaio clínico convencional. Não porque os testes foram mal conduzidos — mas porque a matemática não permite. Eventos raros podem não emergir nos estudos clínicos porque são raros demais para ocorrer em número suficiente numa amostra de fase 3, ou porque ocorrem apenas em subgrupos específicos sub-representados no ensaio.

A farmacovigilância existe exatamente para capturar esses sinais quando a vacina chega à escala de milhões de doses.

O que é um sinal de alerta — e o que ele não é

É importante distinguir dois conceitos que a cobertura jornalística frequentemente confunde: sinal de alerta e causalidade estabelecida.

Um sinal de alerta é uma associação temporal observada entre a vacinação e um evento adverso. Significa que, entre as pessoas vacinadas, um determinado evento ocorreu com frequência que merece atenção. Isso é suficiente para acionar uma investigação formal — mas não para afirmar que a vacina causou o problema.

A investigação de causalidade que se segue é estruturada: compara-se a taxa do evento nos vacinados com a taxa esperada na população geral, realizam-se estudos de caso-controle, avalia-se plausibilidade biológica e busca-se padrão temporal entre a dose e o evento. Com base nesses dados, um comitê independente de especialistas emite parecer.

Esse processo pode ter dois desfechos: confirmação da relação causal — o que pode levar à retirada ou reformulação da vacina — ou ausência de evidência de causalidade, com retomada da vacinação. Em ambos os casos, o procedimento correto é o mesmo: suspender, investigar, concluir com base em dados.

Suspender para investigar não é admitir que a vacina é perigosa. É o procedimento correto — e é exatamente o que as agências regulatórias devem fazer quando um sinal emerge.

Quando o sistema detecta algo real — e age

O caso mais ilustrativo da história recente da vacinação não envolve COVID-19. Aconteceu em 1999, nos Estados Unidos, com a primeira vacina aprovada contra o rotavírus — vírus responsável por diarreia grave em lactentes e por centenas de milhares de mortes infantis por ano em países de baixa renda.

A RotaShield foi aprovada pelo FDA em agosto de 1998, após ensaios clínicos que incluíram mais de 10.000 bebês. Os dados de fase 3 eram tranquilizadores.

Em julho de 1999 — menos de um ano após o início da vacinação em larga escala —, o sistema de farmacovigilância dos Estados Unidos detectou 15 casos de intussuscepção entre bebês que haviam recebido a vacina. Intussuscepção é uma obstrução intestinal grave, em que um segmento do intestino se dobra sobre si mesmo. O CDC recomendou a suspensão imediata da vacinação e iniciou duas investigações de emergência.

O estudo de caso-controle conduzido após a suspensão, publicado no New England Journal of Medicine, confirmou a associação causal: a RotaShield aumentava o risco de intussuscepção em cerca de 20 a 30 vezes nas duas semanas seguintes à primeira dose, em comparação com crianças não vacinadas. O risco absoluto era de aproximadamente 1 a 2 casos adicionais para cada 10.000 bebês vacinados — raro, mas real e grave.

Em outubro de 1999, a recomendação de uso da RotaShield foi retirada, e o fabricante a removeu voluntariamente do mercado.

O desfecho dessa história é o que mais importa: o sistema funcionou exatamente como foi desenhado para funcionar. Um sinal foi detectado em escala pós-comercialização, uma investigação rigorosa confirmou causalidade, e a vacina foi retirada antes que mais crianças fossem afetadas.

Sete anos depois, duas novas vacinas contra rotavírus — Rotarix e RotaTeq — foram aprovadas após ensaios em mais de 60.000 bebês, com perfil de segurança aprimorado em relação à intussuscepção, e passaram a proteger crianças no mundo inteiro, incluindo no Brasil. A retirada de uma vacina não significou o abandono da proteção contra a doença. Significou que o sistema corrigiu o curso.

Quando o sinal não confirma causalidade — e a vacinação é retomada

Nem todo sinal de alerta confirma uma relação causal. Às vezes a investigação conclui que o evento observado foi coincidência — e a vacinação é retomada.

Em março de 2021, a maioria dos países europeus suspendeu a vacina da AstraZeneca contra COVID-19 após relatos de casos raros de trombose com trombocitopenia em pessoas vacinadas. A Agência Europeia de Medicamentos conduziu uma análise detalhada dos dados disponíveis, concluiu que os benefícios da vacina superavam amplamente os riscos e recomendou a retomada da vacinação. A maioria dos países restabeleceu o uso em poucos dias.

Pesquisas posteriores identificaram um mecanismo imunológico específico associado a uma síndrome rara — trombocitopenia trombótica imune induzida pela vacina —, o que permitiu o desenvolvimento de orientações clínicas para identificar e tratar os casos. A ciência avançou a partir do sinal.

Os dois casos ilustram os dois desfechos possíveis de uma suspensão investigativa: confirmação da causalidade com retirada do imunizante (RotaShield, 1999), ou investigação sem confirmação de causalidade com retomada (AstraZeneca, 2021). Em ambos, o processo foi o mesmo. Em ambos, a população foi protegida — seja pelo resultado, seja pelo procedimento.

O que isso significa para outras vacinas

Um equívoco frequente é usar a suspensão de uma vacina como argumento para questionar outras. As vacinas do calendário nacional são imunizantes distintos, com composições, mecanismos de ação e perfis de segurança completamente independentes entre si. A suspensão de um imunizante específico não tem implicação sobre os demais.

Todas as vacinas licenciadas passam por testes rigorosos de segurança, qualidade e eficácia antes de chegar ao mercado. O que os estudos clínicos não conseguem capturar são eventos extremamente raros — e é exatamente para isso que a vigilância pós-comercialização existe. O fato de que esses eventos são detectados e investigados não é argumento contra as vacinas. É argumento a favor do sistema que as monitora.

Interromper vacinas do calendário de rotina — gripe, hepatite B, tétano, HPV, febre amarela, entre outras — por conta de uma notícia sobre suspensão de imunizante não relacionado significa trocar um risco hipotético por doenças preveníveis reais. Essa troca não favorece a saúde.

O papel do médico de família nesse processo

Uma notícia sobre suspensão de vacina costuma gerar dúvidas que chegam ao consultório — e essa é, a meu ver, a função mais importante do médico de atenção primária nesse contexto: contextualizar a informação. O que aconteceu, o que está sendo investigado, o que se sabe e o que ainda não se sabe. Essa conversa não cabe num grupo de WhatsApp. Cabe numa consulta, onde o histórico clínico do paciente, suas dúvidas específicas e suas condições de saúde podem ser considerados.

A farmacovigilância produz informação técnica. Transformar essa informação em decisão clínica individualizada é o trabalho do médico.


Perguntas frequentes

Por que eventos adversos raros não aparecem nos estudos clínicos de uma vacina? Ensaios clínicos de fase 3, mesmo os maiores, incluem dezenas de milhares de participantes — número suficiente para detectar efeitos adversos comuns, mas insuficiente para identificar eventos que ocorrem em 1 a cada 50.000 ou 100.000 pessoas. Para capturar esses eventos raros, existe a vigilância pós-comercialização (fase 4), que monitora milhões de doses depois que a vacina é aprovada e incorporada ao calendário.

O que significa a suspensão temporária de uma vacina? A suspensão temporária é um procedimento padrão de segurança, adotado quando o sistema de farmacovigilância detecta um sinal de alerta — ou seja, uma associação temporal entre a vacinação e um evento adverso que merece investigação. Suspender para investigar não significa que a vacina foi comprovadamente prejudicial. Significa que o sistema de monitoramento funcionou como deveria, e que uma investigação formal irá determinar se há relação causal ou se o evento foi coincidência.

Como é feita a investigação de causalidade após um sinal de alerta vacinal? A investigação envolve estudos epidemiológicos estruturados: compara-se a taxa do evento nos vacinados com a taxa esperada na população geral (análise observado versus esperado), realiza-se estudo de caso-controle, avalia-se plausibilidade biológica e busca-se padrão temporal entre a dose e o evento. Com base nesses dados, um comitê independente de especialistas emite parecer sobre a relação entre a vacina e o evento adverso observado.

Se uma vacina for suspensa, devo parar de tomar outras vacinas? Não. Cada vacina tem composição, mecanismo de ação e perfil de segurança independentes. A suspensão de um imunizante específico não tem implicação sobre as demais vacinas do calendário nacional. Interromper outras vacinações por conta de uma suspensão não relacionada aumenta o risco de doenças preveníveis sem qualquer benefício de segurança. Em caso de dúvida, a orientação deve vir do seu médico.

Quem monitora a segurança de vacinas no Brasil? A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é o órgão regulatório responsável pela farmacovigilância de vacinas no Brasil, em colaboração com o Ministério da Saúde e o Programa Nacional de Imunizações (PNI). Profissionais de saúde e serviços de saúde podem notificar eventos adversos pelo sistema NOTIVISA. O Brasil também integra o sistema internacional de farmacovigilância da Organização Mundial da Saúde.


Conclusão

O sistema de segurança de vacinas foi desenhado para ser rigoroso na entrada — e ainda mais rigoroso depois da aprovação. Nenhum ensaio clínico, por maior que seja, consegue antecipar todos os eventos raros em todas as populações possíveis. Por isso existe a farmacovigilância. E por isso a suspensão de uma vacina, quando necessária, é demonstração de que o sistema está operando corretamente.

Ler uma notícia de suspensão como evidência de que “vacinas são perigosas” é confundir o alarme com o incêndio. O alarme está funcionando. Essa é a informação importante.

*A imagem que ilustra este artigo foi gerada por inteligência artificial.


REFERÊNCIAS

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Dr. Angelo Bannack - Médico de Família

Dr. Angelo Bannack

Dr. Angelo Bannack é médico de família e comunidade em Curitiba, com atuação em consultório particular e atendimento domiciliar. Trabalha com foco em prevenção, check-ups personalizados e acompanhamento contínuo baseado em evidências.

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