Síndrome de Guillain-Barré: a doença da fraqueza muscular

Dr. Angelo Bannack

Atualizado há 4 meses

A Síndrome de Guillain-Barre é uma condição que causa fraqueza dos músculos do corpo. Ela é uma doença autoimune, onde o próprio sistema imunológico ataca os nervos do corpo.

Neste artigo você vai aprender exatamente o que é a síndrome, como se adquire, qual o tratamento e como se proteger. De quebra você vai saber quem foram Guillain e Barré.

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Vídeo: SÍNDROME DE GUILLAIN-BARRÉ: a doença da FRAQUEZA MUSCULAR

GUILLAIN-BARRÉ: Descubra se a FRAQUEZA NAS MÃOS ou nas PERNAS pode ser a síndrome

O que é a Síndrome de Guillain-Barré

A Síndrome de Guillain-Barré ou Síndrome de Guillain-Barré-Strohl é o nome que se dá a uma condição rara e grave em que o sistema imunológico – os “soldados” de defesa do corpo – começam a atacar (de forma equivocada) as células dos nervos que atuam nos músculos. Ela pode afligir tanto adultos quanto crianças.

Os nervos são danificados e daí aparecem os sintomas principalmente de fraqueza nos braços e pernas. Essa fraqueza afeta os dois lados do corpo de forma igual.

A fraqueza costuma ser progressiva, com os sintomas aparecendo e aumentando de intensidade com o passar dos dias, tendo um pico de gravidade com cerca de 2 a 4 semanas do início.

Os sintomas costumam iniciar afetando o movimento das pernas e braços, variando de dificuldade para caminhar até a paralisia completa dos músculos. Dependendo da gravidade da doença ela pode evoluir para a paralisia dos músculos da respiração e o doente precisar ser entubado para poder respirar.

Dificuldade de engolir e de movimentar os olhos também podem se desenvolver. Além disso, é comum dor muscular e sensação de formigamento ou perda da sensibilidade das mãos e pés.

Quem foram Guillain e Barré

Georges Guillain e Jean Alexandre Barré foram dois neurologistas franceses que, juntamente com o fisiologista – também francês – André Strohl, descreveram a síndrome pela primeira vez. Em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, eles detectaram quantidades grandes de um tipo de proteína no líquido espinhal de 2 soldados que tinham fraqueza e dores musculares.

Em 1927, os também neurologistas franceses H. Draganesco e J. Claudion usaram pela primeira vez o termo síndrome de Guillain-Barré. Acredita-se que o nome do fisiologista Strohl foi esquecido provavelmente em função de sua participação ter se restringido a testes de eletrofisiologia. Eu suspeito ainda de que o fato dele não ser médico contribuiu para a falta de créditos.

Outro fato curioso é que em 1859, o médico francês Jean Baptiste Octave Landry descreveu uma condição que afetava os nervos e que paralisava os membros, pescoço e os músculos da respiração. A principal diferença entre sua descrição e a de Guillain, Barré e Strohl era a falta do achado das proteínas na punção lombar, um exame que só foi disponibilizado em 1891.

Talvez a síndrome deveria ser chamada de Landry-Guillain-Barré-Strohl.

Como se pega a síndrome

A síndrome é desencadeada por algum tipo de infecção anterior, sendo a mais comum a infecção por uma bactéria de nome Campylobacter jejuni que causa diarreia. Mas outras infecções podem desencadear a síndrome de Guillain-Barré, tais como Influenza, Citomegalovirus, HIV, Covid-19, Zika virus e Chikungunya.

Campylobacter jejuni

A doença mais comum que pode desencadear a Síndrome de Guillain-Barré é a infecção pela bactéria Campylobacter jejuni. Mas mesmo sendo a causa mais comum, estima-se que apenas cerca de 0,03% das pessoas que adquirem a bactéria desenvolvem a síndrome. Isso contribui para tornar a Síndrome de Guillan-Barré uma condição rara.

A bactéria é mais comumente encontrada em aves e é adquirida pelos humanos à partir de água e de alimentos contaminados. Qualquer carne crua de animais pode potencialmente ser contaminada. Fezes de animais também podem conter a bactéria e serem fontes de transmissão. Uma pessoa infectada não transmite a bactéria para outras, a menos que a pessoa tenha contato com as fezes do doente.

Pessoas contaminadas desenvolvem diarreia, dor abdominal e eventualmente fezes com sangue, que curam após cerca de uma semana. Sendo a síndrome de Guillain-Barré uma possível e rara complicação.

Influenza

O vírus influenza, causador da gripe, é a segunda causa mais comum da Síndrome de Guillain-Barré. A influenza A parece causar uma síndrome mais grave que o vírus do tipo B.

Covid-19

Não é porque você teve covid que pode desenvolver a síndrome. Os poucos casos evidenciados de Guillain-Barré após covid apareceram em até cerca de 2 semanas depois da infecção pelo Sars-Cov-2 (o vírus causador da covid). E mesmo assim não há comprovação definitiva de que o vírus da covid foi realmente o desencadeador da Guillain-Barré.

Como evitar a síndrome?

Sabendo a forma de transmissão das doenças que podem desencadear a Síndrome de Guillain-Barré, fica fácil saber como se proteger: bons hábitos de higiene e vacinas para as doenças conhecidas.

Então as dicas são:

  • Somente beba água limpa, clorada e de fontes conhecidas.
  • Consuma somente leite pasteurizado.
  • Não coma carne crua, a menos que confie na procedência e na higiene utilizada para o preparo.
  • Vacine-se para influenza e covid regularmente.

Como saber se tenho a Síndrome de Guillain-Barré

O diagnóstico é realizado principalmente baseado nos sintomas de fraqueza progressiva, simétrica (que afeta os dois lados do corpo) e que se iniciaram algumas semanas após algum outro tipo de infecção (diarreia, gripe ou outra condição).

Para confirmar a doença o médico irá solicitar uma punção lombar. Esse exame consiste em tirar uma amostra do líquido cefalorraquidiano com a ajuda de uma agulha fina e comprida introduzida na região da espinha, nas costas do doente.

A amostra do líquido é levada ao laboratório e se forem encontrados um aumento de proteínas sem aumento de células de defesa do corpo, confirma-se a síndrome.

Outro exame comum que dá suporte ao diagnóstico é a eletroneuromiografia. Ela consiste em colocar dois eletrodos em algum musculo que está enfraquecido e realizar estímulos elétricos para avaliar se o nervo está funcionando normalmente ou está danificado.

O médico ainda pode pedir outros exames para descartar outras doenças que também podem ter sintomas de fraqueza, como anemia ou diabetes descompensado, entre inúmeras outras, inclusive doenças neurológicas.

Em casos de dúvida o médico pode pedir uma ressonância magnética da coluna ou outros exames.

Qual o tratamento para a Síndrome de Guillain-Barré

A Síndrome de Guillain-Barré necessita de tratamento em hospital, muitas vezes com internamento em UTI.

O tratamento é feito basicamente tentando reduzir a resposta do sistema imunológico que está atacando os nervos do corpo. Isto pode ser feito com a aplicação de uma imunoglobulina na veia ou então com a filtragem do plasma do doente, num procedimento chamada de plasmaferese.

A imunoglobulina age combatendo as células de defesa indesejadas, os soldados que estão tentando destruir os nervos. Já a filtragem do plasma é feita justamente para tirar de circulação os soldados indesejados.

Após a crise, é possível que o paciente fique com alguma sequela motora, necessitando de fisioterapia para melhorar a movimentação e voltar a ter uma vida ativa. Cerca de metade dos doentes se recuperam completamente depois de um ano. Outra sequela comum é a fraqueza muscular, que pode se manter por anos ou por toda a vida.

Em raros casos a síndrome pode voltar a aparecer. E a vacinação para as doenças desencadeadoras é mais do que recomendável.

Conclusão

A Síndrome de Guillain-Barré é uma doença rara cuja principal característica é a fraqueza muscular progressiva que afeta inicialmente os membros, mas pode se tornar grave prejudicando inclusive os músculos da respiração. É uma doença autoimune desencadeada por alguma infecção prévia sendo a diarreia causada pela bactéria Campylobacter jejuni a causa mais comum. O tratamento é realizado tentando controlar a crise de resposta imunológica com a aplicação de imunoglobulina na veia ou então com a filtragem do plasma sanguíneo. Alguns pacientes poderão ter sequelas motoras e necessitar de fisioterapia. A melhor forma de prevenir a síndrome é evitando as doenças que a causam, por isso bons hábitos de higiene e vacinação para gripe e covid são essenciais.

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Um forte abraço.

Dr. Angelo Bannack - Médico de Família

Dr. Angelo Bannack

Sou um médico que gosta de escrever, curte tecnologia e que valoriza a ciência como o caminho para a nossa evolução. Como Médico de Família, atendo em meu consultório particular em Curitiba e em consultas domiciliares, ajudando as pessoas a manterem-se saudáveis, com check-ups regulares, orientações e contribuindo no processo de diagnóstico e tratamento da grande maioria dos problemas de saúde.

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