Introdução alimentar do bebê: como fazer?

Dr. Angelo Bannack

Atualizado há 4 meses

A introdução alimentar do bebê pode ser um grande desafio, especialmente para os pais de primeira viagem. No consultório vejo inúmeras dúvidas além de grande insegurança. Muitos querem um encaminhamento para um nutricionista para poder sanar suas dúvidas. Que comidas dar? Que quantidade? Quantas vezes por dia? Posso dar mel? E água? Como saber que o bebê já está saciado? E se o bebê for prematuro? 

Esta fase da vida do bebê não precisa ser um bicho de sete cabeças. É o que tento mostrar respondendo a estas e outras questões neste artigo.

*A alimentação de bebês de famílias que seguem dietas vegetarianas é um capítulo à parte e não é tema desse artigo.

Boa leitura.

*Prefere assistir? O conteúdo deste artigo também está disponível no vídeo abaixo. 

Vídeo: INTRODUÇÃO ALIMENTAR DO BEBÊ: Como Fazer?

Não sabe como iniciar a ALIMENTAÇÃO DO SEU BEBÊ? Aprenda com um médico como fazer de forma saudável

Introdução 

O leite materno ou o leite de fórmula suprem as necessidades nutricionais das crianças até os 6 meses de idade. Após essa idade é necessário complementar a alimentação com fontes de energia, ferro e vitaminas.
Outros tipos de leites de origem animal ou vegetal (vaca, cabra, soja) não são adequados para crianças menores de 1 ano de vida. Esse tipo de leite tem quantidade inadequadas de proteína, gorduras e carboidratos, além de baixa quantidade de vitaminas e minerais. Além disso, alguns leites possuem excesso de proteína, o que pode sobrecarregar os rins da criança.

Água também não é necessária antes dos 6 meses de vida, pois o leite já a contém.

Alimentação complementar

A alimentação complementar é todo tipo de alimento diferente do leite materno ou de fórmula que é dado às crianças, incluindo água.

Quando introduzir

Após os 6 meses de vida o volume de leite humano ingerido pelas crianças torna-se insuficiente para atender as necessidades energéticas, de vitaminas e minerais das crianças. Antes disso não é recomendado, podendo trazer algumas complicações. Introduzir alimentação com sólidos antes dos 6 meses de idade pode favorecer infecções intestinais. Uma explicação para isso é a provável falta de maturidade tanto do intestino quando do sistema de defesa do bebê. Além disso a introdução precoce (antes dos 6 meses) pode favorecer a aspiração de alimentos (quando a comida vai para os pulmões ao invés de para o estômago), aumenta o risco de obesidade, além de poder aumentar a carga dos rins.
Quando as crianças conseguem ter capacidade de se sentar, mesmo que com suporte, elas já têm as habilidades necessárias para começar a receber alimentos sólidos. Esse marco do desenvolvimento ocorre por volta dos 6 meses de vida.

Atrasar muito a introdução da alimentação pode diminuir o crescimento e desenvolvimento normais do bebê, levar a deficiências de ferro e outros nutrientes, atrasar o desenvolvimento da função motora da boca, gerar aversão à comida, aumentar a chance de desenvolver doenças alérgicas como asma, rinite, e alergia aos próprios alimentos.

Por todos estes fatores, o Ministério da Saúde e a Sociedade Brasileira de Pediatria recomendam a introdução da alimentação complementar a partir dos 6 meses de idade, nem antes, nem depois.

E se o bebê for prematuro?

Um bebê prematuro é aquele que nasce antes de 37 semanas de gestação. Nesse caso, o médico de família ou pediatra fará o cálculo de idade corrigida e recomendará a introdução de alimentação complementar somente aos 6 meses de idade corrigida. Por exemplo, se um bebê nasceu com 36 semanas, quando ele tiver 7 meses de idade cronológica (de nascimento) ele terá na verdade aproximadamente 6 meses de idade corrigida, sendo o momento ideal para a introdução da alimentação complementar.

Como iniciar a introdução alimentar

As orientações a seguir são oriundas do Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 anos, publicada em 2021 pelo Ministério da Saúde.

Existem outras formas de iniciar a introdução alimentar para bebês, como a BLW (Baby-Led Weaning) e a participativa. Ambos são métodos desenvolvidos no século XXI e precisam ainda de maiores estudos para mostrarem seus reais prós e contras. Tais formas não são o escopo desde artigo.

Orientações gerais:

  • Até os 6 meses de idade dê apenas leite materno sobre livre demanda. Água e outros alimentos não são necessários nem recomendados.
  • O mel não é recomendado antes de 1 ano de idade.
  • Evite alimentos ultraprocessados (aqueles feitos com adição de corantes, conservantes, açucares entre outros).
  • O paladar se desenvolve nos primeiros 2 anos de vida, por isso não dê açúcar ou alimentos adoçados antes de 2 anos de idade. Pipoca também deve ser evitada.
  • Biscoitos, bolachas, bolos, chocolates e doces em geral devem também ser evitados.
  • No lugar dos sucos (que contêm muito açúcar, mesmo que o natural da fruta) ofereça a fruta in natura.
  • Além do leite materno, água deve ser ofertada a partir dos 6 meses de idade.
  • A partir dos 6 meses, ofereça frutas e alimentos in natura ou minimamente processados.
  • Pode temperar a comida com sal, mas em quantidade mínima.
  • No início dê apenas 2 colheres de sopa de alimentos e vá verificando a aceitação da criança. As crianças indicam a hora que estão saciadas. Alguns bebês comem mais ou menos do que outros.
  • A textura dos alimentos deve ser pastosa no início. Vá aumentando a consistência conforme aceitação.
  • Se a criança recusar algum alimento, não insista no mesmo dia, mas continue insistindo por muitas vezes. Pode ser que naquele dia ela já estava saciada ou não queria aquele alimento.
  • Você deve dar pelo menos um alimento de cada grupo alimentar diariamente, conforme os cardápios sugeridos mais abaixo. 
  • Grupos alimentares
    • Cereais: Arroz, arroz integral, aveia, centeio, milho, trigo, triguilho (trigo para quibe), fubá, flocão, amido de milho, farinha de trigo, e massas frescas ou secas, refinadas ou integrais, feitas de cereais.
    • Feijões (leguminosas): Feijão (branco, carioca, feijão-de-corda, feijão-fava, fradinho, jalo-roxo, mulatinho, preto, rajado, roxinho, vermelho), ervilha, grão-de-bico, soja e lentilha.
    • Raízes e tubérculos: Batata-baroa (mandioquinha, batata-salsa ou cenourinha-amarela), batata-doce, batata-inglesa, cará, inhame, mandioca (aipim ou macaxeira), farinha de mandioca, fécula de batata, polvilho e outras farinhas feitas das raízes e tubérculos.
    • Legumes e verduras: Abóbora (ou jerimum), abobrinha, berinjela, beterraba, cenoura, chuchu, gueroba, ervilha-torta, jiló, jurubeba, maxixe, pepino, pimentão, quiabo, tomate e vagem. Acelga, agrião, alface, almeirão, beldroega, brócolis, catalonha, cebola, chicória, couve, couve-flor, espinafre, jambu, major-gomes, mostarda, ora-pro-nóbis, repolho, taioba.
    • Frutas: Abacate, abacaxi, abiu, açaí, acerola, ameixa, amora, araçá, banana, cajá, caju, caqui, carambola, cereja, cupuaçu, figo, goiaba, graviola, jabuticaba, jaca, jenipapo, laranja, tangerina (ou bergamota, mexerica), lima, maçã, mangaba, mamão, maracujá, melancia, melão, morango, pequi, pera, pêssego, pitanga, pomelo, romã, umbu, uva.
    • Carnes: Carnes bovina, de suíno (porco), cabrito, cordeiro, búfalo, aves, coelho, pescados, frutos do mar, ovos de galinha e de outras aves. Também inclui vísceras ou miúdos de animais (fígado bovino e de aves, estômago ou bucho, tripa, moela de frango) e outras partes internas de animais.
  • Os alimentos dos grupos alimentares não devem ser misturados para formar caldos ou papinhas, mas sim ofertados em porções separadas, de forma que a criança comece a aprender o sabor e a textura de cada alimento em separado.

Para obter dicas sobre como preparar os alimentos, assista aos vídeos do programa Panelinha – Comida de Bebê da Rita Lobo, realizado em parceria com o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP e baseado no Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 anos do Ministério da Saúde. São videos curtos de cerca de 2 minutos cada, que dão dicas valiosas sobre como dar comida de verdade para os bebês além de como se organizar na cozinha mesmo com uma vida agitada.

Aos 6 meses de idade

Cardápio sugerido aos 6 meses de idade:

  • Café da manhã – leite materno ou de fórmula
  • Lanche da manhã – fruta e leite materno ou de fórmula
  • Almoço:
    • 1 alimento do grupo dos cereais ou raízes e tubérculos
    • 1 alimento do grupo dos feijões
    • 1 ou mais alimentos do grupo dos legumes e verduras
    • 1 alimento do grupo das carnes e ovos
  • Lanche da tarde – fruta e leite materno ou de fórmula
  • Jantar – leite materno ou de fórmula
  • Antes de dormir – leite materno ou de fórmula

Sinais de fome: chora e se inclina para frente quando a colher está próxima, segura a mão da pessoa que está oferecendo a comida e abre a boca.

Sinais de saciedade: vira a cabeça ou o corpo, perde interesse na alimentação, empurra a mão da pessoa que está oferecendo a comida, fecha a boca, parece angustiada ou chora.

Consistência: Os alimentos devem ficar separados e bem amassados com garfo, e não devem ser liquidificados nem peneirados. As carnes devem ser bem cozidas e oferecidas em pedaços pequenos (picados ou desfiados). Alimentos crus, como frutas e alguns legumes, podem ser raspados ou amassados

Entre 7 e 8 meses de idade

Cardápio sugerido entre os 7 e 8 meses de idade:

  • Café da manhã – leite materno ou de fórmula
  • Lanche da manhã – fruta e leite materno ou de fórmula
  • Almoço e jantar:
    • 1 alimento do grupo dos cereais ou raízes e tubérculos
    • 1 alimento do grupo dos feijões
    • 1 ou mais alimentos do grupo dos legumes e verduras
    • 1 alimento do grupo das carnes e ovos
  • Lanche da tarde – fruta e leite materno ou de fórmula
  • Jantar – igual ao almoço
  • Antes de dormir – leite materno ou de fórmula

Sinais de fome: inclina-se para a colher ou alimento, pega ou aponta para a comida.

Sinais de saciedade: come mais devagar, fecha a boca ou empurra o alimento. Fica com a comida parada na boca sem engolir

Consistência: Ofereça alimentos menos amassados do que antes ou bem picados, de acordo com a aceitação da criança.

Entre 9 e 11 meses de idade

Cardápio sugerido entre os 9 e 11 meses de idade:

  • Café da manhã – leite materno ou de fórmula
  • Lanche da manhã – fruta e leite materno ou de fórmula
  • Almoço e jantar:
    • 1 alimento do grupo dos cereais ou raízes e tubérculos
    • 1 alimento do grupo dos feijões
    • 1 ou mais alimentos do grupo dos legumes e verduras
    • 1 alimento do grupo das carnes e ovos
  • Lanche da tarde – fruta e leite materno ou de fórmula
  • Jantar – igual ao almoço
  • Antes de dormir – leite materno ou de fórmula

Sinais de fome: aponta ou pega alimentos, fica excitada quando vê o alimento.

Sinais de saciedade: come mais devagar, fecha a boca ou empurra o alimento. Fica com a comida parada na boca sem engolir.

Consistência: A criança já pode receber alimentos picados na mesma consistência dos
alimentos da família. As carnes podem ser desfiadas.

Entre 1 e 2 anos de idade

Cardápio sugerido entre 1 e 2 anos de idade:

  • Café da manhã – leite materno ou de fórmula e uma porção de fruta, cereal ou raízes e tubérculos.
  • Lanche da manhã – fruta e leite materno ou de fórmula
  • Almoço e jantar:
    • 1 alimento do grupo dos cereais ou raízes e tubérculos
    • 1 alimento do grupo dos feijões
    • 1 ou mais alimentos do grupo dos legumes e verduras
    • 1 alimento do grupo das carnes e ovos
  • Lanche da tarde – leite materno ou de fórmula e uma porção de fruta, cereal ou raízes e tubérculos.
  • Jantar – igual ao almoço
  • Antes de dormir – leite materno ou de fórmula

Sinais de fome: combina palavras e gestos para expressar vontade por alimentos específicos, leva a pessoa que cuida ao local onde os alimentos estão, aponta para eles.

Sinais de saciedade: balança a cabeça, diz que não quer, sai da mesa, brinca com o alimento, joga-o longe.

Consistência: Ofereça os alimentos em pedaços maiores e na mesma consistência da comida da família.

Outras suplementações

Além do leite materno ou de fórmula, vitamina D e ferro são necessários.

Vitamina D

Desde o nascimento até 1 ano de idade é importante suplementar as crianças com vitamina D. Isto é necessário para favorecer a absorção de cálcio e o fortalecimento e crescimento dos ossos. Humanos produzem vitamina D pela pele quando em contato com o sol. O leite materno tem baixa quantidade de vitamina D. Além disso as crianças têm pouca exposição solar no início da vida.

A recomendação é de dar 2 gotas de soluções contendo vitamina D uma vez ao dia até pelo menos 1 ano de vida, que é quando aumenta a exposição solar além do aumento de consumo de alimentos ricos nesta vitamina.

Mesmo crianças que se alimentam de leite de fórmula têm recomendação de tomar vitamina D, pois a quantidade de vitamina nas preparações nem sempre suprem a quantidade diária necessário para o bebê. A quantidade diária necessária é de 400 UI ou 10ug.

Ferro

A partir dos 3 ou 6 meses de vida (dependendo da referência), é necessário suplementar o ferro na alimentação. A quantidade desse mineral presente no leite materno e mesmo na alimentação pode ser insuficiente para as necessidades diárias. O ferro é elemento essencial para a produção de algumas células do sangue (hemácias principalmente) e sua carência pode levar à anemia.

Bebês que nasceram após 37 semanas e com peso adequado necessitam de 1mg/kg/dia de ferro. Na maioria das preparações de sulfato ferroso isto dá 1 gota/kg de peso da criança. Com a dose máxima de 15 mg/dia (15 gotas).

Bebês que nasceram antes de 37 semanas ou com baixo peso, podem precisar de doses maiores de ferro. O médico de família ou pediatra irão orientar os pais sobre a quantidade adequada, sendo de 2 a 4mg/kg/dia dependendo do caso.

Uma vez que a criança está se alimentando com alimentos enriquecidos com ferro, a suplementação não é mais necessária. Isto ocorre a partir dos 2 anos de idade.

Porém, a Organização Mundial da Saúde recomenda a suplementação com ferro até os 12 anos de idade, especialmente em populações de países com recursos limitados.

Bebês em uso de leite de fórmula que nasceram com peso adequado e acima de 37 semanas de gestação normalmente não necessitam de suplementação de ferro, pois ele já está presente nestes preparados.

Resumo

Vou deixar disponível aqui as orientações de alimentação para crianças até 2 anos de idade. É um resumo em duas páginas apenas, contendo as principais recomendações desse artigo.

Conclusão

A introdução alimentar do bebê parece complicada, mas não é. É recomendado não dar nada além de leite materno ou de fórmula até os 6 meses de idade. A partir daí inicia-se a introdução de alimentos com consistência mais pastosas, indo aumentando essa consistência aos poucos. A partir de 1 ano de vida a criança já deve estar se alimentando com a mesma alimentação que o restante da família. Ferro e Vitamina D devem ser suplementados. 

Espero que tenha gostado do artigo.

Se ficou com dúvidas ou tem alguma sugestão, crítica ou elogio, escreva nos comentários abaixo ou nas redes sociais.

Abraços e até a próxima.

Dr. Angelo Bannack - Médico de Família

Dr. Angelo Bannack

Sou um médico que gosta de escrever, curte tecnologia e que valoriza a ciência como o caminho para a nossa evolução. Como Médico de Família, atendo em meu consultório particular em Curitiba e em consultas domiciliares, ajudando as pessoas a manterem-se saudáveis, com check-ups regulares, orientações e contribuindo no processo de diagnóstico e tratamento da grande maioria dos problemas de saúde.

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