DESPRESCRIÇÃO: Quando parar de tomar remédios?

Dr. Angelo Bannack

Atualizado há 4 meses

Os medicamentos revolucionaram nossas vidas. Graças a muitos deles vivemos melhor e até por mais tempo. Mas muitas vezes os medicamentos são mal indicados, causam efeitos colaterais, ou não são mais necessários. É aí que entra a DESPRESCRIÇÃO, que nada mais é do que o ato supervisionado de suspender medicamentos nocivos, mal indicados ou sem benefício.

O artigo descreve alguns dos motivos que fazem com que medicamentos sejam tomados por anos mesmo sendo desnecessários além de apresentar quem pode se beneficiar da desprescrição.

Boa leitura.

O que é DESPRESCRIÇÃO?

DESPRESCRIÇÃO é o nome que se dá ao ato de suspender o uso de algum medicamento que se toma de forma contínua e que já não tem necessidade de se utilizar ou que possa estar fazendo mais mal do que bem. Pode parecer estranho, e provavelmente é. Os médicos aprendem a PRESCREVER remédios durante a faculdade e suas especializações, mas raramente aprendem a DESPRESCREVER.

O termo parece ser antigo, tanto é que encontrei artigos de 2003 sobre o assunto, porém, parece que ganhou mais força na última década. A Sociedade Americana de Geriatria publica, desde pelo menos 2015, uma lista de medicamentos que compõe o que eles chamam de critérios de BEERS. São medicamentos potencialmente perigosos para idosos. Em 2015 um grupo de farmacêuticas canadenses criou o site deprescribing.org que reúne informações sobre que tipos de medicações podem e devem ser desprescritas e a forma de fazê-lo. O site tem conteúdo mais voltado para médicos e profissionais de saúde. E a principal razão para isso é porque a desprescrição não deve ser feita sozinha pelo próprio paciente

Parar de tomar medicamentos de uso contínuo de forma abrupta pode trazer consequências. Além disso, medicamentos foram prescritos por algum motivo. Entender e saber essa razão é fundamental. 

Objetivos da DESPRESCRIÇÃO

O principal objetivo é o de melhorar a qualidade de vida e parar de fazer mal. Se você está tomando algo que não precisa, além de poder estar tendo algum efeito colateral causado pela medicação mal indicada, está jogando dinheiro fora.

Por exemplo, uma pessoa que está tendo quedas, pode se beneficiar de parar de tomar alguma medicação que potencialmente a esteja causando. Pessoas que tomam algumas medicações indicadas de forma errada para dormir (principalmente os benzodiazepinicos – clonazepam, diazepam e outros), têm mais chances de desenvolver demência, além de dependência.

Além disso, pessoas que tomam muitos medicamentos, às vezes tem dificuldade de administrar esses medicamentos. É comum tomarem doses dobradas dos medicamentos, ou esquecerem de tomar outro, o que pode trazer efeitos colaterais. Otimizar as medicações e suspender aquelas desnecessárias pode fazer bem.

Por que medicamentos acabam sendo usados sem necessidade?

Com o envelhecimento, é comum a pessoa desenvolver uma série de problemas de saúde, o que, com o modelo de saúde que temos, acaba a levando a buscar vários especialistas. Cada um destes médicos acaba indicando um ou mais medicamentos para tratar de uma condição em particular. Com o passar dos anos as pessoas passam a tomar tantas medicações que nem sabem mais o motivo

Uma das coisas que sempre faço em todas as consultas, é revisar a lista de medicamentos que a pessoa toma. É surpreendente saber que muitas pessoas tomam 10 ou mais medicamentos todos os dias. Em muitas vezes elas nem sabem o motivo de estarem tomando tais medicamentos. , que dirá o nome. É comum se referirem aos medicamentos pelo tamanho ou pela cor, mas nem todos sabem para que servem. “Doutor, estou tomando um comprimido grande depois do almoço e da janta, um branquinho pequeninho pela manhã e um amarelo a noite. Tem também aquele azul e branco que tomo antes do café“. 

Com o avanço da medicina, os medicos passaram a se especializar cada vez mais. É comum termos especialistas em um órgão ou doença específica. E isto é ótimo. Algumas doenças são complexas e precisam de um ultra especialista para cuidar delas. O problema acontece quando o paciente só é atendido por especialistas, que se dedicaram por anos a estudar apenas um órgão e estão familiarizados apenas com um conjunto de medicamentos. Aliado a isso, temos as consultas cada vez mais rápidas, motivadas pela redução da remuneração entre outros motivos. Isso faz com que os médicos mal tenham tempo de entender a queixa que trouxe o paciente até ali. Revisar todos os medicamentos que o paciente toma e verificar se não há interação entre eles parece ser um luxo para poucos.

Além disso, muitos medicamentos são prescritos sem que o médico tome o cuidado de escrever na receita ou de informar ao paciente por quanto tempo deve ser tomado. É comum encontrar pacientes que estão tomando anti-inflamatórios por anos, sem nem saber que o remédio que está tomando é um medicamento receitado para uma dor aguda nas costas que já despareceu faz muito tempo. Os anti-inflamatórios, na maioria das vezes, são prescritos para serem usados por 1 ou 2 semanas apenas pois têm uma série de efeitos colaterais.

Algumas vezes o médico até fala ou escreve o tempo de uso na receita. Mas é tanto remédio que o paciente toma que ele simplesmente acaba colocando mais um na sua rotina. 

Muitos desses medicamentos são comprados sem receita nas farmácias. E o paciente nunca mais volta no especialista e acaba com mais um medicamento na sua lista. Sendo comprado sem precisar renovar a receita.

Outra causa de uso desnecessário de medicações são as prescrições hospitalares. Algumas vezes o paciente sai do hospital com uma receita feita às pressas e com medicações mal indicadas. Um exemplo é a insulina. Canso de ver pacientes que, antes de serem internados, faziam uso de metformina ou algum outro comprimido para tratar a diabetes e acabam com uma receita de insulina quando saem do hospital. É protocolo na maioria dos hospitais suspender os remédios para o diabetes e fazer o controle da glicemia apenas com insulina durante o internamento. Isso tem vários motivos, mas normalmente, quando saem do hospital, os pacientes podem suspender a insulina e voltar a tomar os medicamentos na forma de comprimido. Porém, às vezes os pacientes ficam confusos e, além da insulina, acabam tomando também os medicamentos que já tomavam anteriormente, num esquema desnecessário e que pode causar mal.

Outro problema de um medicamento mal indicado é que as vezes o paciente ganha outro para tratar os efeitos colaterais do primeiro. Pessoas que tomam anti-inflamatórios diariamente e de forma desnecessária, acabam tendo dores no estomago, o que os leva a tomar medicações antiácidas para combater tal efeito. Apesar de não estar bem estabelecido, omeprazol, pantoprazol, lansoprazol e seus derivados também podem ter efeitos colaterais no uso a longo prazo. Anti-inflamatórios podem ainda aumentar a pressão arterial e um anti-hipertensivo pode acabar se somando à extensa lista de remédios de uso contínuo.

Além disso, os médicos têm medo de trocar ou alterar a prescrição de outros colegas. Acreditam que possam estar se metendo onde não devem. Porém o que está em jogo é a saúde do paciente. Quando tenho dúvidas e sei que o paciente tem um acompanhamento com algum especialista rotineiramente, faço uma carta para o especialista. Na carta questiono a possibilidade de suspender algum medicamento ou de trocar por outro, muitas vezes para o mesmo problema, porém com custo ou forma de tomar mais simples no contexto de todos os medicamentos usados diariamente. Aproveito para informar todos os medicamentos que o paciente está tomando. Os médicos às vezes não sabem de todos os remédios que seus pacientes usam. 

Um dos inúmeros motivos que me levaram a fazer Medicina de Família foi justamente essa possibilidade de coordenar o cuidado, além de gerenciar os medicamentos que possam estar duplicados, fazendo mal, ou ainda sobrando na lista dos remédios de todos os dias. E claro, de poder cuidar da maioria dos problemas de saúde dos pacientes. Tem uma frase que um professor nos dizia e que cabe aqui: “Quem tem vários médicos na verdade não tem nenhum”. Cada um vê um pedaço, mas ninguém vê o todo

Para completar, há poucas pesquisas científicas sobre a desprescrição. Entendo que é um assunto que gera poucos lucros e ainda tem um potencial de causar prejuízos para a indústria farmacêutica, o que pode motivar a pouca atenção ao tema.

Quem pode se beneficiar?

Na realidade toda e qualquer pessoa que toma algum medicamento deveria fazer um acompanhamento periódico com um médico de confiança. É a oportunidade para revisar se a medicação está bem indicada e deve ser mantida, se a dose está adequada e se ela continua fazendo o efeito desejado.

Alguns pacientes estão sob um risco maior de efeitos colaterais e abuso de medicamentos. Entre eles estão:

  • Idosos: Os idosos são potencialmente os que mais fazem uso de múltiplas medicações, seja devido aos múltiplos problemas de saúde ou ao histórico de passarem pela mão de inúmeros especialistas sem ter um médico único que coordene e gerencie seu cuidado.
  • Pessoas que consultam com muitos especialistas: É cultural, se você tem dor de estômago vai no gastrologista. Se você está com dor de cabeça vai no neurologista. Se tem dor nas costas vai no ortopedista. Ao procurar especialistas diretamente, sem ter um médico generalista de confiança que o conheça e o acompanhe, aumentam muito as chances de receber medicações desnecessárias e mal indicadas.
  • Doentes renais: Existem medicamentos que são proibidos de serem utilizados por pessoas que têm problemas nos rins, pois podem danificar ainda mais o órgão.
  • Pessoas que não aderem a tratamento: algumas pessoas têm dificuldades em aderir a medicações. Seja por terem sido mal atendidos por algum médico ou simplesmente por não gostarem de medicações e não terem recebido uma explicação sobre a eventual necessidade de algum remédio. Estes podem acabar com múltiplas receitas de remédios que são tomados aleatoriamente, e que acabam não trazendo benefícios.
  • Baixa expectativa de vida: Além da geriatria a área de cuidados paliativos é uma das que mais atua na desprescrição. Pacientes em estágios terminais podem se beneficiar da retirada de muitos medicamentos.
  • Demência: Pacientes com algum tipo de demência acabam fazendo uso de inúmeros medicamentos, as vezes prescritos apenas para algum sintoma pontual, e que muitas vezes podem ser descontinuados. 

Medicamentos comuns de serem desprescritos

Todo e qualquer medicamento pode acabar sendo desnecessário em algum momento. Mas existem alguns que tem normalmente a indicação de serem utilizados por um curto período, sendo usados por longos meses ou anos somente em condições muito particulares. Entre eles estão:

  • Benzodiazepinicos: Estes medicamentos (alprazolam, bromazepam, clonazepam, diazepam, estazolam, lorazepam, midazolam entre outros) são muitas vezes indicados por um curto período para reduzir sintomas ansiosos até que o medicamento ansiolítico comece a fazer efeito, o que pode levar algumas semanas. Após isso eles devem ser descontinuados. Como eles acalmam e relaxam, também facilitam o sono. E muitas vezes são utilizados por anos para dormir. O sono é um assunto complexo e existem outras formas de abordá-lo, mas o uso dos benzodiazepinicos definitivamente não é a melhor opção. O principal efeito colateral é produzir sedação e afetar a memória com seu uso contínuo.
  • Anti-inflamatórios: Ácido acetilsalicílico, diclofenaco, ibuprofeno, naproxeno, nimesulida, piroxicam e outros anti-inflamatórios ajudam a reduzir a dor e tratar as inflamações. São bem indicados com uso por longos períodos por pessoas que tenham doenças como lupus e artrite reumatóide. Porém, têm como efeitos colaterais, no uso prolongado, úlceras e sangramentos no estomago, danos aos rins e ao fígado e podem ainda causar zumbido nos ouvidos. Não tem indicação de serem utilizados diariamente para tratar dores em geral.
  • Inibidores da Bomba de Prótons: São medicamentos como o omeprazol, pantoprazol, deslanzoprazol e esomeprazol. Costumam ser bem indicados para tratar úlceras estomacais, gastrite, refluxo entre outros problemas do estômago. Normalmente seu uso é realizado por um período de poucos meses, sendo indicados para uso contínuo somente em situações particulares. Seu uso contínuo está associado a deficiência de vitamina B12, por dificuldade em sua absorção e fraturas de quadril. Existem inúmeros outros efeitos colaterais ainda não bem estabelecidos pela ciência. De qualquer forma, seu uso contínuo para tratar qualquer dor ou queimação no estômago não parece adequado.
  • Antihiperglicemicos: Diabéticos que começam a usar insulina, muitas vezes não necessitam de alguns medicamentos que antes usavam e que serviam para estimular o pâncreas a produzir insulina. Clorpropamida, glibenclamida e gliclazida são alguns exemplos. Além disso, com o passar do tempo algumas pessoas começam a ter sintomas de hipoglicemia e alguns medicamentos precisam ser revistos. Muitos medicamentos que atuam no diabetes são contraindicados para quem tem problemas graves nos rins, podendo piorar a função renal.
  • Antidepressivos: Medicações que atuam no cérebro são indicadas em muitas situações e muitas vezes precisam ser utilizadas indefinidamente. Porém, nos casos em que a pessoa está bem controlada e sem sintomas por anos e ainda com diagnóstico duvidoso, ou ainda o oposto, mal controlada e com crises recorrentes com a medicação em uso, seu uso deve ser revisto. 
  • Anti-hipertensivos: Especialmente nos idosos, os valores alvo da pressão arterial não são bem estabelecidos. Além disso, muitas medicações têm como efeito colateral reduzir a pressão arterial, e os idosos acabam tomando várias medicações por inúmeras razões. Quando os valores da pressão se tornam muito baixos, promovendo sintomas como tontura ao se levantar ou até quedas, os medicamentos anti-hipertensivos precisam ser revistos. 

Como é feita a desprescrição?

Normalmente um paciente não vai chegar num consultório com uma lista de 15 medicamentos e sair com 2. A desprescrição precisa ser feita aos poucos. E nem todos os medicamentos podem ser retirados. Às vezes os 15 medicamentos estão bem indicados. 

Quando necessário, os medicamentos são descontinuados aos poucos. Às vezes para um ou dois medicamentos e se aguarda um ou mais meses para avaliar a resposta.

Alguns medicamentos não podem ser suspensos da noite para o dia, sob o risco de trazer efeitos colaterais que dificultam sua descontinuação. Os principais deles são os medicamentos que atuam no cérebro e que precisam de receita especial para serem comprados. A descontinuação abrupta pode levar a sintomas como tontura, formigamentos, diarreia, entre outros.

O ideal ainda é que seja uma decisão compartilhada entre o médico e o paciente. Numa relação de respeito e confiança.

Não pare de tomar medicações por conta própria. Não é seguro. Conte com a ajuda de seu médico.

Conclusão

A desprescrição é parte da boa prescrição, e se refere ao ato de suspender o uso de medicamentos nocivos, mal indicados ou sem benefício para uma pessoa.

Muitas vezes a pressa do médico em querer resolver um problema acaba fazendo com que um medicamento acabe sendo tomado por anos, mesmo sem precisar. Outras vezes as medicações acabam não tendo mais benefícios em estágios diferentes da vida. O acompanhamento com um médico de confiança e que faça a coordenação do cuidado pode ajudar a evitar esses problemas, e ainda contribuir com a suspensão de medicamentos já desnecessários. 

Nem todo remédio deve e pode ser desprescrito. O médico é o responsável por fazer esse cuidado de forma adequada e segura.

Espero que tenha gostado do artigo. 

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Um forte abraço.

Dr. Angelo Bannack - Médico de Família

Dr. Angelo Bannack

Sou um médico que gosta de escrever, curte tecnologia e que valoriza a ciência como o caminho para a nossa evolução. Como Médico de Família, atendo em meu consultório particular em Curitiba e em consultas domiciliares, ajudando as pessoas a manterem-se saudáveis, com check-ups regulares, orientações e contribuindo no processo de diagnóstico e tratamento da grande maioria dos problemas de saúde.

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