Uma filha me trouxe a mãe ao consultório numa manhã de terça. A senhora, 71 anos, havia parado de lavar o próprio cabelo. Não por preguiça nem por esquecimento: não conseguia levantar os braços até a cabeça. Contou que acordava travada, que precisava de uns quarenta minutos de conversa com o próprio corpo antes de sair da cama, e que virar de lado no colchão durante a noite tinha se transformado em uma operação. Já havia passado por dois médicos. Ouviu que era artrose, tomou anti-inflamatório por duas semanas e não melhorou nada. A filha, ao lado, resumiu em uma frase o que a incomodava: “Doutor, minha mãe envelheceu seis anos em dois meses.”
Aquela história tinha uma pista importante. Começou de repente. Artrose não faz isso: ela se instala ao longo de anos, devagar, quase sempre de um lado mais que do outro. Dor e rigidez que aparecem em dias ou poucas semanas, nos dois ombros ao mesmo tempo, em alguém acima dos 50 anos, com rigidez matinal prolongada, apontam para outra coisa. Apontam para a polimialgia reumática — uma doença inflamatória que, segundo revisão publicada na revista Lancet, tem idade média de início em torno dos 73 anos e risco estimado ao longo da vida de 2,43% nas mulheres e 1,66% nos homens.
Traduzindo esses números: não é uma doença rara. É uma doença pouco lembrada.
Neste artigo eu explico como esse padrão é reconhecido, como o diagnóstico é feito (e por que nenhum exame fecha o caso sozinho), o que mais consegue imitar essa doença, o sinal de alerta que transforma o quadro em urgência e como funciona o tratamento — incluindo a parte trabalhosa, que é reduzir o corticoide com paciência.
Boa leitura.
📋 O essencial deste artigo
- A polimialgia reumática causa dor e rigidez nos ombros, no quadril e no pescoço, quase sempre dos dois lados, em pessoas acima dos 50 anos.
- A rigidez matinal prolongada — em geral mais de 45 minutos — é o sinal mais característico, e diferencia o quadro da artrose.
- Não existe exame que confirme o diagnóstico: ele é clínico, apoiado em marcadores de inflamação como VHS e PCR e na exclusão de outras causas.
- Dor de cabeça nova, alteração visual ou dor ao mastigar em quem tem polimialgia reumática exigem avaliação médica com urgência, pela possibilidade de arterite de células gigantes.
- O tratamento é feito com corticoide em dose baixa a moderada, com redução lenta e acompanhamento; recaídas durante a redução são comuns.
O que é a polimialgia reumática
A polimialgia reumática é uma doença inflamatória que provoca dor e rigidez intensas na cintura escapular (a região dos ombros), na cintura pélvica (a região dos quadris) e no pescoço, quase sempre de forma simétrica e em pessoas com mais de 50 anos. O nome engana um pouco. “Mialgia” significa dor muscular, e por décadas se acreditou que o problema estava nos músculos. Hoje se sabe que não é isso.
A Sociedade Brasileira de Reumatologia descreve o mecanismo com clareza: os sintomas são causados por inflamação nas estruturas profundas das articulações do ombro, do pescoço e do quadril — bursas, tendões e a membrana que reveste a articulação por dentro. A dor é sentida como se fosse muscular porque essas estruturas ficam encaixadas embaixo de camadas de músculo. É parecido com uma dor de dente que parece vir do ouvido: o cérebro erra o endereço.
Essa distinção tem uma consequência prática interessante. Como o problema é inflamatório e articular, e não muscular, a força costuma estar preservada. A pessoa não fica fraca; ela fica travada. No exame físico isso aparece de um jeito bem característico: quando o próprio paciente tenta levantar o braço, o movimento é limitado pela dor, mas quando o médico levanta o braço dele com cuidado, o movimento vai bem mais longe. Quem sente que perdeu força de verdade — não consegue segurar um copo, tropeça, cai — provavelmente tem outro problema, e isso muda toda a investigação.
Quem tem mais chance de desenvolver polimialgia reumática
A polimialgia reumática é praticamente exclusiva de pessoas acima dos 50 anos, e é mais comum em mulheres. A Sociedade Brasileira de Reumatologia registra que a doença raramente ocorre antes dos 50 anos, que a idade média dos pacientes gira em torno dos 70 anos e que ela é cerca de duas vezes mais frequente em mulheres do que em homens.
Por que depois dos 50? A causa exata não é conhecida. A hipótese mais aceita envolve o envelhecimento do sistema imunológico, que com o tempo passa a produzir respostas inflamatórias mais desreguladas — o mesmo terreno em que várias doenças autoimunes de início tardio aparecem. Há uma contribuição genética e provavelmente ambiental, mas nenhum gatilho isolado foi identificado.
Um ponto que costuma ser mal compreendido: a idade explica quem adoece, não a doença em si. Ouvir que “é da idade” é justamente o erro que atrasa o diagnóstico. Envelhecer não trava os dois ombros de uma pessoa em duas semanas. Isso é inflamação, e inflamação tem nome, tem exame e tem tratamento.
Como é a dor e a rigidez da polimialgia reumática
O sintoma mais característico da polimialgia reumática é a rigidez matinal prolongada nos ombros e nos quadris, que dura mais de 45 minutos e melhora com o movimento ao longo do dia. Esse número não é arbitrário. Ele veio de um estudo prospectivo internacional que comparou 125 pacientes com polimialgia reumática a 169 pessoas com condições que imitam a doença, e que transformou esses achados em critérios de classificação publicados na Annals of the Rheumatic Diseases. A rigidez matinal acima de 45 minutos foi o item de maior peso de todo o conjunto.
Na prática do consultório, o relato costuma seguir sempre o mesmo roteiro:
- Dor nos dois ombros ao mesmo tempo, muitas vezes irradiando para os braços até o cotovelo
- Dor nos dois quadris, irradiando para as coxas
- Dor no pescoço e na região da nuca
- Dificuldade específica para movimentos que exigem levantar os braços: pentear o cabelo, vestir uma blusa, tirar algo do armário alto
- Dificuldade específica para levantar de uma cadeira baixa, do sofá ou do vaso sanitário
- Piora acentuada depois de períodos de repouso — de manhã e depois de ficar sentado muito tempo
- Sono interrompido pela dor ao virar na cama
Um detalhe que faz diferença: a instalação costuma ser rápida. Muitos pacientes conseguem apontar quase o dia em que começou. Esse contraste com o arrastar-se lento da artrose é uma das informações mais úteis da consulta inteira.
Existe ainda um segundo conjunto de sintomas, que raramente é associado ao quadro pelo próprio paciente e por isso passa batido. Segundo a mesma revisão da Lancet, sintomas gerais aparecem em 40% a 50% dos casos: cansaço fora do comum, febre baixa, falta de apetite, perda de peso não intencional e mal-estar difuso. A Sociedade Brasileira de Reumatologia inclui também a depressão entre as manifestações possíveis, o que faz todo sentido em alguém que passou semanas com dor, sono ruim e perda de autonomia.
Vale registrar por que isso importa. Uma pessoa que chega ao consultório com cansaço, emagrecimento e febre baixa costuma disparar uma investigação inteira voltada a infecção ou câncer. Se essa mesma pessoa tem dor e rigidez nos dois ombros e nos dois quadris, a explicação pode ser bem mais simples do que parece — e o caminho da investigação muda bastante.
Como o diagnóstico de polimialgia reumática é feito
Não existe exame de sangue, de imagem ou de biópsia que confirme a polimialgia reumática: o diagnóstico é clínico. Os exames servem para apoiar a suspeita e, principalmente, para afastar outras doenças. Isso frustra muita gente que gostaria de sair da consulta com um papel escrito, mas é assim que funciona.
O que se pede, na maioria dos casos:
Marcadores de inflamação — VHS e PCR. A VHS (velocidade de hemossedimentação) e a PCR (proteína C reativa) são exames que sinalizam inflamação em algum lugar do corpo, sem dizer onde. Na polimialgia reumática eles costumam estar bem elevados, e essa elevação, somada ao quadro clínico típico, é o que mais sustenta a suspeita.
Aqui cabe um alerta que evita erro: valores normais não descartam a doença. Em um estudo prospectivo italiano com 177 pacientes, 6% tinham VHS normal no momento do diagnóstico, e nesse subgrupo a PCR quase sempre estava alterada. Ou seja: pedir os dois exames é melhor que pedir um, e um resultado normal em quem tem o quadro clássico não fecha a porta.
Exames para excluir outras causas. Fator reumatoide e anti-CCP (anticorpos ligados à artrite reumatoide), TSH para avaliar a tireoide, hemograma, função renal, cálcio, enzimas musculares e outros conforme a história. Nas recomendações conjuntas da EULAR e do American College of Rheumatology, publicadas na Annals of the Rheumatic Diseases, a avaliação inicial é explicitamente orientada a excluir condições que imitam o quadro — inflamatórias, endocrinológicas, infecciosas, tumorais e causadas por medicamentos — antes de se fechar o diagnóstico. Isso é o oposto de pedir exame por pedir; é pedir exame com pergunta clara.
Ultrassom dos ombros e quadris. Não é obrigatório, mas ajuda. Mostra a inflamação nas bursas e nos tendões e reforça o diagnóstico quando o quadro é duvidoso. No estudo dos critérios de classificação, acrescentar o ultrassom melhorou a capacidade de distinguir a polimialgia reumática de outras causas de dor no ombro.
A resposta ao corticoide. Esta é a parte mais peculiar e mais útil. A polimialgia reumática responde ao corticoide de um jeito rápido e marcante: em boa parte dos casos, a melhora aparece em poucos dias com doses baixas a moderadas. A resposta rápida chegou a ser avaliada como critério formal no estudo internacional, definida como melhora acima de 75% em uma semana com 15 a 20 mg de prednisona por dia.
Isso não transforma o corticoide em teste diagnóstico, e vale insistir nesse ponto: corticoide melhora dor de origem inflamatória em geral, inclusive em doenças que não são polimialgia reumática, e pode mascarar uma infecção ou um tumor. Tomar por conta própria porque alguém disse que “se melhorar é polimialgia” é uma péssima ideia. O valor da resposta está em interpretá-la dentro de um raciocínio que já vinha sendo construído — e o contrário também informa: quem não melhora em uma a duas semanas provavelmente tem outro diagnóstico.
Polimialgia reumática ou outra coisa? O que mais causa dor e rigidez depois dos 50
Várias condições produzem dor e rigidez nos ombros e quadris em pessoas acima dos 50 anos, e é justamente por isso que o diagnóstico da polimialgia reumática exige exclusão ativa de alternativas. Vale conhecer as principais.
Artrite reumatoide de início tardio
É o diferencial mais difícil de todos. A artrite reumatoide que começa depois dos 60 anos pode se apresentar com dor nos ombros e rigidez matinal, praticamente indistinguível da polimialgia reumática nos primeiros meses. O que aponta para ela: inchaço em articulações pequenas de mãos e pés, acometimento assimétrico e presença de fator reumatoide ou anti-CCP no sangue. Nos critérios de classificação, a ausência desses anticorpos foi um item de peso justamente por isso. Às vezes só o tempo esclarece, e não há nada de errado em revisar um diagnóstico meses depois.
Dor muscular associada às estatinas
Muita gente nessa faixa de idade já usa estatina para controlar o colesterol, e dor muscular é um dos efeitos adversos mais relatados dessa classe. A diferença costuma estar no padrão: a dor da estatina tende a ser mais difusa, simétrica nas coxas e nos braços, sem rigidez matinal prolongada e sem elevação de VHS e PCR. As recomendações da EULAR e do ACR listam explicitamente as condições causadas por medicamentos entre as que precisam ser afastadas. Vale a pena revisar a lista completa de medicamentos em uso antes de fechar qualquer diagnóstico.
Hipotireoidismo
A tireoide funcionando de menos causa dor muscular, rigidez, cansaço, desânimo e ganho de peso — um conjunto que se sobrepõe bastante ao da polimialgia reumática. É um diagnóstico simples de afastar com uma dosagem de TSH, e por isso esse exame entra na avaliação inicial de praticamente todos esses casos. Já escrevi em detalhe sobre o hipotireoidismo e a doença do metabolismo lento.
Fibromialgia
A fibromialgia também causa dor difusa e sensação de rigidez, mas o perfil geralmente é diferente: costuma começar mais cedo na vida, envolve dor em muitos pontos do corpo além dos ombros e quadris, vem acompanhada de sono não reparador e cansaço persistente, e — este é o ponto decisivo — não cursa com elevação de VHS e PCR. Não é uma doença inflamatória, e o tratamento não tem nada a ver com corticoide.
Problemas do ombro em si
Tendinopatia do manguito rotador, bursite e capsulite adesiva (o “ombro congelado”) podem doer muito e limitar bastante o movimento. Quando ocorrem nos dois ombros ao mesmo tempo, chegam perto de imitar o quadro. O que diferencia: não há sintomas gerais, os marcadores inflamatórios são normais e o exame físico localiza a dor em estruturas específicas, em vez de encontrar dor difusa por toda a região.
Miopatias inflamatórias
São doenças que atacam o músculo de fato. A queixa central aqui é fraqueza real, não dor que limita: dificuldade para subir escada, para levantar do chão, para sustentar objetos. As enzimas musculares no sangue costumam estar bem elevadas, o que não acontece na polimialgia reumática.
Infecções e neoplasias
Alguns quadros infecciosos e alguns tumores produzem dor difusa, febre baixa, cansaço e emagrecimento em pessoas idosas. São menos frequentes que as opções acima, mas são a razão principal pela qual o diagnóstico de polimialgia reumática não deve ser fechado às pressas, e pela qual quem não responde ao tratamento merece uma segunda investigação em vez de mais corticoide.
O sinal de alerta que muda tudo: a arterite de células gigantes
A polimialgia reumática pode vir acompanhada de arterite de células gigantes, uma inflamação das artérias que, sem tratamento, pode levar à perda irreversível da visão — e essa é a única parte deste artigo que constitui urgência médica. A Sociedade Brasileira de Reumatologia estima que cerca de 20% dos pacientes com polimialgia reumática apresentam arterite de células gigantes. No caminho inverso, a mesma sociedade registra que metade dos pacientes com arterite de células gigantes tem dor e rigidez em pescoço, ombros e quadris — ou seja, tem também polimialgia reumática. As duas condições são consideradas parentes próximas, possivelmente faces diferentes de um mesmo processo.
A arterite de células gigantes inflama a parede de artérias de médio e grande calibre, com preferência pelas artérias da têmpora (daí o nome antigo, arterite temporal). A parede inflamada engrossa, o espaço interno diminui e o sangue passa com dificuldade. Quando a artéria afetada é a que nutre o nervo óptico, o resultado pode ser a perda de visão — e essa perda pode ser definitiva. Em séries de pacientes com diagnóstico confirmado por biópsia, a perda visual permanente ocorre em 10% a 20% dos casos.
Estes são os sinais que exigem avaliação médica no mesmo dia:
- Dor de cabeça nova ou diferente, especialmente na região das têmporas, em quem não costumava ter dor de cabeça
- Sensibilidade no couro cabeludo — dói ao pentear o cabelo ou ao apoiar a cabeça no travesseiro
- Qualquer alteração visual: visão embaçada, visão dupla, ou perda de visão que aparece e passa
- Dor na mandíbula ao mastigar, que aparece depois de alguns instantes de mastigação e alivia quando se para
- Febre persistente sem explicação
A boa notícia é que esses sinais têm bom valor quando estão ausentes. A Sociedade Brasileira de Reumatologia coloca isso de forma direta: se a pessoa com polimialgia reumática não tem dor de cabeça, alteração visual, dor na artéria temporal nem dor ao mastigar, a chance de arterite de células gigantes é pequena.
Diante de qualquer um desses sintomas, o caminho é procurar atendimento no mesmo dia, e não esperar a próxima consulta agendada. A conduta e as doses de medicação são completamente diferentes das usadas na polimialgia reumática isolada, e o tempo aqui importa de verdade.
Como é o tratamento da polimialgia reumática
O tratamento da polimialgia reumática é feito com corticoide por via oral, em dose baixa a moderada, reduzida lentamente ao longo de meses. As recomendações conjuntas da EULAR e do American College of Rheumatology orientam usar a menor dose eficaz dentro de uma faixa de 12,5 mg a 25 mg de prednisona por dia como tratamento inicial. O painel desaconselha começar com doses muito baixas, abaixo de 7,5 mg por dia, e recomenda fortemente contra doses acima de 30 mg por dia.
Dentro dessa faixa, a escolha é individual. Doses mais próximas do teto costumam ser consideradas em quem tem maior risco de recaída e menor risco de efeitos adversos. Doses mais baixas costumam ser preferidas em quem convive com diabetes, osteoporose ou glaucoma — condições que o corticoide piora.
A redução da dose segue um roteiro que exige paciência. As mesmas recomendações sugerem chegar a 10 mg por dia entre a quarta e a oitava semana de tratamento, e depois reduzir cerca de 1 mg a cada quatro semanas, enquanto a doença permanecer controlada. Fazendo a conta, fica claro por que o tratamento se estende: de 10 mg a zero, nesse ritmo, são pelo menos dez meses. E esse cronograma pressupõe que nada dê errado no caminho.
O que costuma dar errado é a recaída. Os sintomas voltam quando a dose desce abaixo de um certo ponto, e é necessário subir de novo. No ensaio clínico que avaliou uma medicação nova para esses casos, os autores registraram que mais da metade dos pacientes não consegue reduzir o corticoide com sucesso — o que resulta em tratamento prolongado e em mais exposição aos efeitos adversos. Recaída não significa que algo foi feito de forma errada; é uma característica conhecida da doença.
Para quem recai repetidamente ou não tolera o corticoide, existem alternativas. O metotrexato pode ser associado, e as recomendações da EULAR e do ACR sugerem considerá-lo de forma condicional em quem tem alto risco de recaída, tratamento prolongado ou fatores de risco para efeitos adversos do corticoide. Mais recentemente, um ensaio clínico randomizado publicado no New England Journal of Medicine testou o sarilumabe, um medicamento que bloqueia a ação da interleucina-6, em pacientes que recaíam durante a redução: a remissão sustentada em 52 semanas foi alcançada por 28% no grupo do sarilumabe contra 10% no grupo comparador, e a dose acumulada de corticoide ao longo do ano foi bem menor (777 mg contra 2.044 mg). É um avanço relevante, mas vale ler o número com honestidade: a maioria dos pacientes de ambos os grupos não atingiu remissão sustentada. É uma opção para casos difíceis, não uma substituição do tratamento padrão.
E existe a parte do tratamento que não é o comprimido da doença. Uso prolongado de corticoide aumenta o risco de perda de massa óssea, glicemia alterada, catarata, glaucoma, ganho de peso e fragilidade da pele. Isso significa que o acompanhamento inclui avaliar saúde óssea, discutir cálcio e reposição de vitamina D quando indicada, monitorar glicemia e pressão, manter atividade física dentro do possível e pensar em prevenção de quedas. E significa também revisar periodicamente se cada medicamento em uso continua fazendo sentido — o raciocínio que já detalhei ao escrever sobre quando parar de tomar remédios.
Quando o seu caso muda tudo
Algumas situações mudam bastante a interpretação de um quadro que parece polimialgia reumática:
- Idade abaixo dos 50 anos. A doença é raríssima nessa faixa. Um quadro parecido em alguém mais jovem pede outra investigação, não um tratamento empírico.
- VHS e PCR normais. Não excluem o diagnóstico, mas exigem cautela redobrada e reforçam o valor do ultrassom e da exclusão de alternativas.
- Ausência de melhora em uma a duas semanas de corticoide. Este é um dos sinais mais úteis de que o diagnóstico precisa ser revisto. A resposta habitual é rápida; quando ela não vem, insistir em aumentar a dose sem reavaliar raramente é o melhor caminho.
- Inchaço em articulações de mãos e pés. Aponta para artrite reumatoide de início tardio, com implicações completamente diferentes de tratamento e de acompanhamento.
- Fraqueza muscular verdadeira, e não dor que limita o movimento. Muda a investigação para as doenças musculares.
- Perda de peso importante, febre persistente ou sintomas que não se encaixam. Merecem investigação para infecção e neoplasia antes de se assumir a hipótese mais simples.
- Osteoporose, diabetes ou glaucoma já diagnosticados. Não impedem o tratamento, mas mudam a dose inicial escolhida e tornam o cuidado com os efeitos adversos parte central do plano.
- Qualquer sintoma de arterite de células gigantes. Deixa de ser um caso de consulta agendada e passa a ser um caso de atendimento no mesmo dia.
Conclusão
Dor e rigidez nos ombros e quadris ao acordar, depois dos 50 anos, com instalação rápida e melhora ao longo do dia, formam um padrão reconhecível — e polimialgia reumática é uma das explicações mais frequentes para ele. O diagnóstico é clínico, apoiado em marcadores de inflamação e construído por exclusão. O tratamento com corticoide costuma trazer alívio rápido, mas exige redução lenta e acompanhamento próximo, porque recaídas são comuns e porque o próprio remédio pede cuidados. E existe um único conjunto de sintomas que não admite espera: dor de cabeça nova, alteração visual ou dor ao mastigar.
A senhora do começo deste artigo tinha VHS e PCR bem elevadas, TSH normal, fator reumatoide e anti-CCP negativos, e nenhum sinal de arterite de células gigantes. Começou o tratamento numa quinta-feira. No domingo, telefonou a filha para contar que havia lavado o próprio cabelo. Levou dez meses para sair do corticoide, com uma recaída no meio do caminho que exigiu voltar duas doses. Nada disso foi rápido nem linear. Mas ela não tinha envelhecido seis anos em dois meses. Tinha adoecido — e adoecer, ao contrário de envelhecer, às vezes tem volta.
O que me parece mais importante nessa história é o tempo perdido antes. Dois meses de dor atribuída à idade, duas semanas de anti-inflamatório sem efeito e nenhum exame de inflamação solicitado. Reconhecer um padrão exige ouvir a história inteira, com atenção ao detalhe que parece secundário — quando começou, se é dos dois lados, quanto tempo dura a rigidez de manhã. É exatamente esse tipo de escuta que ter um médico de família permite construir ao longo do tempo.
Um forte abraço.
Dr. Angelo Bannack Médico de Família e Comunidade CRM-PR 44753 · RQE 32141
Perguntas frequentes
O que é polimialgia reumática?
A polimialgia reumática é uma doença inflamatória que causa dor e rigidez nos ombros, nos quadris e no pescoço, geralmente dos dois lados, em pessoas com mais de 50 anos. A inflamação ocorre nas estruturas profundas das articulações, como bursas e tendões, e não nos músculos, apesar do nome. A idade média de início fica em torno dos 70 aos 73 anos, e a doença é cerca de duas vezes mais frequente em mulheres.
Quais são os primeiros sintomas da polimialgia reumática?
Os primeiros sintomas costumam ser dor nos dois ombros e nos dois quadris, com rigidez matinal que dura mais de 45 minutos e melhora com o movimento ao longo do dia. É comum haver dificuldade para levantar os braços acima da cabeça e para se levantar de cadeiras baixas. Em 40% a 50% dos casos aparecem também cansaço, febre baixa, falta de apetite e perda de peso.
Como é feito o diagnóstico da polimialgia reumática?
O diagnóstico é clínico. Não existe exame que confirme a doença isoladamente. A avaliação combina o padrão dos sintomas, os marcadores de inflamação no sangue (VHS e PCR), exames para afastar outras causas como hipotireoidismo e artrite reumatoide, e às vezes o ultrassom dos ombros e quadris. A resposta rápida ao corticoide reforça a hipótese, mas não substitui a investigação.
Polimialgia reumática tem cura?
A polimialgia reumática costuma ser uma doença autolimitada, o que significa que na maioria dos casos ela se resolve com o tratamento adequado e o paciente consegue interromper a medicação. O tempo até isso acontecer varia muito entre as pessoas, e recaídas durante a redução do corticoide são frequentes. Mais da metade dos pacientes tem dificuldade para reduzir o corticoide sem que os sintomas retornem.
Quanto tempo dura o tratamento da polimialgia reumática?
O tratamento costuma durar de meses a alguns anos, variando conforme cada caso. As recomendações internacionais orientam iniciar com 12,5 mg a 25 mg de prednisona por dia, reduzir para 10 mg por dia entre a quarta e a oitava semana e depois diminuir cerca de 1 mg a cada quatro semanas, enquanto a doença permanecer controlada. Recaídas exigem voltar a doses maiores e prolongam o tratamento.
Polimialgia reumática é a mesma coisa que fibromialgia?
Não. São doenças diferentes. A polimialgia reumática é inflamatória, cursa com elevação de VHS e PCR, afeta principalmente ombros e quadris em pessoas acima dos 50 anos e responde a corticoide. A fibromialgia não é inflamatória, não altera esses exames, costuma começar mais cedo na vida, envolve dor difusa em muitos pontos do corpo e tem tratamento completamente distinto.
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*A Imagem que ilustra esse artigo foi gerado por inteligência artificial.
