A pergunta do fim da consulta: quais suplementos realmente funcionam

Dr. Angelo Bannack

Atualizado hoje

A consulta já tinha acabado. Receita impressa, exames solicitados, dúvidas respondidas — ou pelo menos era o que eu pensava. O paciente se levantou, apertou minha mão, caminhou até a porta, pôs a mão na maçaneta e virou o corpo pela metade, como quem lembrou de uma bobagem:

— Doutor, e aquele suplemento que todo mundo está tomando? Vale a pena?

Nós temos até apelido para isso: é a pergunta da maçaneta. É a dúvida que o paciente carregou durante os vinte minutos inteiros de consulta e que ele só solta quando já está de saída, justamente porque acha que é pequena, ou porque teme parecer ingênuo. Só que ela quase nunca é pequena. Por trás dela costuma haver um pote de duzentos reais na cozinha, um vídeo de sessenta segundos que apareceu no celular às onze da noite e uma dose que ninguém checou.

Então vamos responder no começo, porque a pergunta merece resposta e não rodeio: dos suplementos mais vendidos no Brasil, muito poucos têm indicação real para uma pessoa saudável. Alguns funcionam de verdade, mas só acoplados a um comportamento — a creatina não faz nada sozinha no armário. Outros são reposição de uma falta que precisa ser comprovada antes, como o ferro e a vitamina B12. E vários dos mais caros simplesmente não entregam o que foi prometido: a berberina, vendida como “Ozempic natural”, reduziu em média menos de um quilo de peso corporal na maior revisão sistemática sobre o tema, publicada no International Journal of Obesity em 2025.

Neste artigo eu percorro treze substâncias, uma por uma, organizadas não por ordem alfabética mas pelo motivo que leva a pessoa a comprar. Para cada uma: o que ela realmente faz, quem se beneficia de verdade e o que ela não faz.

Boa leitura.

📋 O essencial deste artigo

  • A pergunta útil não é “esse suplemento funciona?”, mas “funciona para quê, em quem, e o que você está tentando resolver com ele?”.
  • Creatina e proteína têm boa evidência — mas acopladas a treino de força e a uma dieta que esteja realmente faltando proteína.
  • Ferro, vitamina B12 e vitamina D são reposição de deficiência comprovada em exame, não otimização para quem está bem.
  • Magnésio para sono, vitamina C para resfriado e berberina para emagrecer têm evidência fraca ou efeito muito menor do que a propaganda sugere.
  • Biotina em dose alta pode falsear exames de sangue importantes, incluindo troponina e TSH, e levar a diagnóstico errado.
  • Suplemento não é isento de risco: há interações relevantes com anticoagulantes, antidiabéticos e imunossupressores.

A pergunta certa não é “funciona?”

Existe um jeito melhor de fazer essa pergunta, e ele muda todas as respostas. A pergunta não é se o suplemento funciona. É funciona para quê, em quem, e o que você está tentando resolver com ele.

Pense num guarda-chuva. Ele funciona? Funciona muito bem. Mas se você o abrir dentro de casa num dia de sol, não vai molhar menos — vai só andar com um guarda-chuva aberto pela sala. O guarda-chuva não é ruim. Está sendo usado num contexto em que não tem nada para fazer.

Quase todos os suplementos deste artigo cabem numa de três gavetas:

Reposição de uma falta. O corpo está sem alguma coisa, isso foi demonstrado em exame, e o suplemento devolve o que faltava. Ferro na anemia por deficiência de ferro. Vitamina B12 em quem não absorve. Aqui o suplemento funciona porque existe um buraco a preencher — e se não existe buraco, encher não melhora nada.

Ferramenta acoplada a um comportamento. O suplemento potencializa algo que você já está fazendo. Creatina com treino de força. Proteína em pó numa dieta que estava abaixo da meta. Sem o comportamento, a ferramenta fica parada.

Promessa de otimização em quem já está bem. É a gaveta mais cheia, a mais lucrativa e a mais vazia de evidência. É a pessoa que dorme mal por causa do celular na cama e compra magnésio. Que come pouca proteína e compra HMB. Que não treina e compra creatina.

Guardar essa divisão na cabeça vale mais do que memorizar a lista abaixo. Ela é a mesma lógica que uso quando penso em pedir ou não pedir um exame: a intervenção só faz sentido se houver algo para ela fazer.

Para ganhar músculo e força: creatina, proteína e HMB

Creatina

A creatina é o suplemento com melhor evidência deste artigo, e também o mais mal usado. Ela é a mais desejada do país — mais citada do que o whey protein em levantamentos de consumo — e a que mais gente compra sem cumprir a única condição que a faz funcionar.

A creatina é uma substância que o próprio corpo produz e que você também obtém comendo carne e peixe. Dentro do músculo, ela participa do sistema que fornece energia rápida para esforços curtos e intensos — aquele segundo e meio em que você empurra a barra para cima. Suplementar aumenta o estoque dessa energia disponível. Resultado prático: você consegue fazer mais uma ou duas repetições. Ao longo de meses, mais repetições viram mais força e mais músculo.

Repare na engrenagem. A creatina não constrói músculo. Ela permite que você treine um pouco mais, e é o treino que constrói o músculo. Sem treino de força, o pote na cozinha é pó caro.

Isso vale também para quem tem mais idade, e aqui a coisa fica interessante para além da academia. Uma metanálise publicada em 2025 na European Review of Aging and Physical Activity reuniu ensaios randomizados e encontrou aumento de força e de massa magra em idosos que combinaram creatina com treino resistido, com efeito dependente da duração da intervenção. Força muscular no idoso não é vaidade: é a diferença entre levantar da cadeira sozinho e cair dentro de casa.

Quem se beneficia de verdade: quem faz treino de força com regularidade, em qualquer idade. O que ela não faz: não emagrece, não substitui treino, não aumenta músculo em quem está sedentário.

Sobre o medo mais comum: a creatina eleva um pouco a creatinina do sangue — que é um resíduo dela, não um sinal de doença — e isso assusta muita gente quando o exame chega. Em pessoas com rins saudáveis, essa elevação não indica dano renal. Mas se você tem doença nos rins ou vai fazer exames, avise seu médico que está usando creatina, porque essa informação muda a leitura do resultado.

Whey protein e as outras proteínas em pó

O whey protein não é um remédio para hipertrofia. É comida em pó. Essa frase resolve a maior parte da confusão.

O que constrói músculo é a quantidade total de proteína que você come ao longo do dia, distribuída nas refeições, somada ao estímulo do treino. O whey é uma forma prática e rápida de somar proteína a esse total. Se o seu total já está adequado — e para muita gente que come ovo, carne, feijão, leite e iogurte, está —, acrescentar um shake não adiciona benefício, adiciona custo.

Onde a proteína suplementar realmente muda o jogo é em quem não alcança a meta: o idoso que perdeu o apetite e come pouca carne, a pessoa em recuperação de cirurgia, quem passou por cirurgia bariátrica, quem está perdendo massa muscular. Nesses casos o pó deixa de ser conveniência e passa a ser estratégia clínica, de preferência com acompanhamento de nutricionista.

Quem se beneficia de verdade: quem tem ingestão de proteína abaixo do necessário e dificuldade de corrigir só com comida. O que ele não faz: não é superior à proteína da comida, não compensa treino ruim, não é obrigatório para ganhar músculo.

E o HMB, que aparece em prateleira de suplemento premium como o próximo passo depois da creatina? Ele é um derivado da leucina, um dos aminoácidos da proteína, e a evidência é bem mais modesta do que o preço sugere. Uma metanálise publicada em 2025 na Frontiers in Nutrition avaliando pessoas acima de 50 anos encontrou algum efeito sobre indicadores de massa muscular, mas os achados não se replicam de forma consistente entre estudos: outras revisões em pacientes com sarcopenia encontraram melhora em velocidade de marcha sem melhora correspondente em força de preensão ou massa muscular. Praticamente toda essa pesquisa foi feita em idosos internados, institucionalizados ou em reabilitação — não no adulto saudável de academia, que é quem mais compra. Para esse, não há por que gastar: creatina é mais barata, melhor estudada e com efeito maior.

Para o coração: ômega 3 e coenzima Q10

Ômega 3

O ômega 3 é o exemplo mais elegante de um suplemento que tem indicação real, mas não a indicação que a maioria das pessoas imagina ter.

A ideia popular é que cápsula de óleo de peixe protege o coração de todo mundo. A evidência é mais estreita e mais interessante. Uma metanálise publicada em 2025 na Clinical and Translational Discovery reuniu ensaios randomizados e encontrou redução de infarto fatal e de necessidade de revascularização, sem efeito sobre AVC — e, ao mesmo tempo, aumento do risco de fibrilação atrial, uma arritmia do coração. Esse sinal de arritmia não é novidade: já havia sido descrito por Gencer e colaboradores em 2021 na Circulation, que ao reunir ensaios de desfecho cardiovascular encontraram aumento do risco de fibrilação atrial com a suplementação de ômega 3. O risco parece depender da dose e do risco cardiovascular de base da pessoa, e ainda é assunto em discussão ativa.

Traduzindo para a bancada da cozinha: um remédio que tem benefício em algumas situações e um efeito indesejado em outras é um remédio, e remédio se toma por indicação, não por hábito. A indicação mais estabelecida é o tratamento de triglicerídeos muito elevados, em dose alta e sob prescrição — o que é bem diferente da cápsula genérica comprada por conta própria. Para quem come peixe algumas vezes por semana, o ganho adicional da cápsula é, na melhor das hipóteses, pequeno.

Quem se beneficia de verdade: pessoas com triglicerídeos muito altos ou situações cardiovasculares específicas definidas em consulta. O que ele não faz: não é proteção cardiovascular universal, e não é isento de efeito adverso.

Coenzima Q10

A coenzima Q10 é uma substância envolvida na produção de energia dentro das células. Ela ficou popular por duas razões distintas, e as duas merecem cuidado.

A primeira é a dor muscular em quem usa estatina, o remédio do colesterol. A teoria é plausível: a estatina reduz a produção de Q10 pelo corpo, e daí viria a dor. Mas a evidência é dividida de verdade. Uma metanálise publicada em 2018 no Journal of the American Heart Association reuniu doze ensaios randomizados e encontrou melhora de dor, fraqueza, cãibra e fadiga muscular com a Q10. Outras metanálises de ensaios randomizados não encontraram benefício algum. Quando revisões sérias chegam a conclusões opostas sobre a mesma pergunta, a resposta honesta é que ainda não sabemos.

Se você sente dor muscular usando estatina, o caminho é a consulta, não o suplemento. Dor muscular em uso de estatina precisa ser avaliada: às vezes é a estatina, às vezes não é, e existem estratégias eficazes como trocar a molécula, ajustar a dose ou mudar o esquema. Não interrompa nem reduza a estatina por conta própria — o risco de parar um tratamento que está prevenindo infarto é maior do que o desconforto que motivou a parada. Escrevi em detalhe sobre esses medicamentos no artigo sobre colesterol alto e risco cardiovascular.

A segunda razão é a insuficiência cardíaca. O estudo Q-SYMBIO, publicado em 2014 no JACC: Heart Failure, sugeriu benefício da Q10 como adjuvante em pacientes com insuficiência cardíaca. É um achado relevante, mas é um ensaio único, em população doente e sob tratamento médico — não é justificativa para uso preventivo em pessoa saudável.

Quem se beneficia de verdade: possivelmente pessoas com insuficiência cardíaca em acompanhamento, como adjuvante; talvez parte de quem tem sintoma muscular por estatina. O que ela não faz: não é energizante, não previne doença cardíaca em quem é saudável, não substitui nenhum remédio do coração.

Para dormir e para a ansiedade: magnésio e melatonina

Magnésio

O magnésio é hoje o campeão de vendas movido a rede social, e a distância entre o que se promete e o que se demonstrou é grande.

Comece pelo básico que raramente é dito: deficiência real de magnésio é incomum em quem se alimenta razoavelmente. O mineral está em folhas verdes escuras, leguminosas, castanhas, sementes e cereais integrais. Deficiência importante aparece em situações específicas — uso prolongado de certos diuréticos ou de inibidores de bomba de próton (os “protetores de estômago”), alcoolismo, doenças intestinais com má absorção, diabetes descompensada.

E para dormir? Uma revisão sistemática com metanálise publicada na BMC Complementary Medicine and Therapies reuniu os ensaios randomizados disponíveis em idosos com insônia e encontrou redução de cerca de dezessete minutos no tempo para pegar no sono, com a ressalva de que todos os estudos tinham risco de viés moderado a alto e a qualidade da evidência foi classificada como baixa a muito baixa. Foram três ensaios, com cento e cinquenta e uma pessoas no total. É pouca gente e é evidência frágil para sustentar o volume de propaganda que existe.

Dezessete minutos, na melhor leitura possível de uma evidência fraca. Compare com o que se ganha desligando a tela uma hora antes de deitar, mantendo horário de dormir e acordar, e cortando o café da tarde. Escrevi sobre isso no artigo de higiene do sono, e o incômodo aqui é conhecido: mudar hábito é chato e de graça, comprar pote é agradável e caro.

Quanto às diferentes formas — dimalato, bisglicinato, treonato, citrato —, a discussão sobre qual absorve melhor ocupa muito espaço comercial e pouco espaço em evidência clínica comparativa. Vale saber que o óxido de magnésio é o que mais solta o intestino, o que às vezes é o efeito “sentido” que a pessoa interpreta como o suplemento funcionando.

Quem se beneficia de verdade: quem tem deficiência documentada ou condição que causa perda do mineral. O que ele não faz: não é ansiolítico, não é sonífero, não corrige sono desorganizado por hábito.

Melatonina

A melatonina não é um sonífero. Ela é o sinal de que anoiteceu — o hormônio que o corpo produz quando a luz cai e que ajusta o relógio biológico. Isso define exatamente onde ela serve: para deslocar o horário do sono, não para derrubar alguém no sono.

As duas situações em que ela tem papel mais claro são o jet lag de viagens com muitas horas de diferença e o atraso de fase, aquele padrão do adolescente ou do adulto que só consegue dormir às três da manhã e acordar ao meio-dia. Nesses casos, o momento de tomar importa mais do que a dose. Para a insônia comum, aquela em que a pessoa deita no horário certo e fica olhando o teto, o efeito é modesto.

Há um detalhe brasileiro que muda completamente a leitura do rótulo. A Anvisa autorizou a melatonina como suplemento alimentar em outubro de 2021, por alteração da Instrução Normativa 28/2018, exclusivamente para pessoas com dezenove anos ou mais e com consumo diário máximo de 0,21 mg — e, importante, sem aprovar nenhuma alegação de benefício associada ao consumo. As doses usadas em estudos e vendidas no exterior costumam ser várias vezes maiores. Ou seja: o produto que você compra legalmente na prateleira brasileira como suplemento tem uma fração da dose estudada, e a própria agência não autorizou dizer que ele faz algo. Versões em dose maior existem em farmácia de manipulação, sob outras regras, e aí já não é suplemento — é preparação magistral.

Quem se beneficia de verdade: jet lag e distúrbios de horário do sono, com orientação sobre o momento da tomada. O que ela não faz: não é sonífero, não trata insônia crônica, não deve ser usada por gestantes, lactantes e crianças sem avaliação.

Para não ficar gripado: vitamina C

Nenhum suplemento deste artigo tem evidência tão clara — e tão clara no sentido de “não funciona para o que você quer” — quanto a vitamina C para prevenir resfriado.

A revisão Cochrane de Hemilä e Chalker é o documento definitivo aqui. Reunindo vinte e nove comparações com mais de onze mil participantes, ela mostra que o uso regular de vitamina C não teve efeito nenhum sobre a chance de ficar resfriado na população comum. Nenhum. O uso regular encurtou modestamente a duração dos sintomas. E, num achado que quase ninguém menciona, em cinco ensaios com pessoas submetidas a estresse físico extremo — maratonistas, esquiadores, soldados em treinamento — a vitamina C reduziu o risco de resfriado pela metade.

Note quem é esse subgrupo. Não é você indo trabalhar no inverno de Curitiba. É gente correndo quarenta e dois quilômetros.

E a parte que mais interessa na prática, porque é o que quase todo mundo faz: tomar vitamina C em dose alta depois que o resfriado já começou. Os ensaios que testaram exatamente isso não mostraram efeito consistente sobre duração ou gravidade. Uma metanálise dos mesmos autores publicada em 2023 na BMC Public Health encontrou redução da gravidade dos sintomas com suplementação regular, reforçando que o pouco que existe está no uso contínuo prévio, não no comprimido efervescente do dia em que a garganta doeu.

Vale lembrar que dose muito alta e continuada não é inofensiva: aumenta a excreção de oxalato e está associada a maior risco de cálculo renal em pessoas predispostas. Já tratei dos outros mitos de inverno no artigo sobre gripes e resfriados.

Quem se beneficia de verdade: pessoas com deficiência alimentar real e, em algum grau, quem passa por estresse físico extremo. O que ela não faz: não previne resfriado em quem se alimenta bem, não cura resfriado começado, não “aumenta a imunidade” de quem está saudável.

Para emagrecer: berberina, o “Ozempic natural”

Esse apelido é a mentira mais eficiente do mercado de suplementos hoje, e ele funciona porque explora uma frustração legítima: as canetas emagrecedoras são caras e nem todo mundo tem acesso.

A berberina é um alcaloide extraído de plantas, usada há muito tempo na medicina tradicional chinesa, com efeitos reais sobre metabolismo de glicose e lipídios. O problema não é ela ser inerte. É a magnitude. A revisão sistemática com metanálise mais robusta disponível, publicada em 2025 no International Journal of Obesity, reuniu vinte e três estudos e encontrou redução média de 0,88 kg de peso corporal, com queda de 0,48 kg/m² no índice de massa corporal e 1,32 cm de circunferência abdominal.

Menos de um quilo. É isso que a berberina entrega, em média, nos estudos. Comparar isso com um análogo de GLP-1 não é exagero de marketing, é categoria errada.

E o risco não é desprezível. A Academia Americana de Médicos de Família alerta que faltam dados rigorosos de benefício e que a berberina tem múltiplas interações com medicamentos metabolizados pelo fígado, incluindo a metformina. Guarde essa combinação, porque ela é comum na vida real: a pessoa com pré-diabetes ou diabetes que já usa metformina compra berberina para acelerar o emagrecimento e passa a tomar as duas juntas, sem contar a ninguém. Some-se a isso interação com imunossupressores de transplante e contraindicação na gestação e amamentação.

Quem se beneficia de verdade: ninguém, para o fim de emagrecer. O efeito é pequeno demais para justificar o custo e o risco de interação. O que ela não faz: não é equivalente a GLP-1, não emagrece de forma clinicamente relevante, não é “natural logo seguro”.

Para quem “está com a vitamina baixa”: ferro, B12 e multivitamínico

Esta seção tem uma regra que vale para as três: aqui não se adivinha, se dosa.

Ferro

O ferro é o suplemento em que a automedicação tem o maior potencial de causar dano direto, e por um motivo simples: o corpo não tem uma via eficiente de eliminar o excesso.

Ferro é para quem tem deficiência de ferro demonstrada em exame. Anemia por falta de ferro, ferritina baixa, perda de sangue conhecida. E, quando essa deficiência aparece, ela é um sintoma, não um diagnóstico final: a pergunta seguinte e obrigatória é por que está faltando. Em uma mulher que menstrua muito, a resposta pode ser óbvia. Em um homem de cinquenta anos ou numa mulher depois da menopausa, ferro baixo é sinal de alerta que exige investigação de sangramento no aparelho digestivo. Tomar ferro por conta própria nesses casos faz o exame melhorar e a investigação não acontecer, o que é exatamente o pior desfecho possível.

Além disso, ferro em excesso causa desconforto abdominal, constipação e escurecimento das fezes, e sobrecarga crônica pode afetar fígado e coração em pessoas com predisposição genética.

Quem se beneficia de verdade: quem tem deficiência confirmada e teve a causa investigada. O que ele não faz: não dá energia em quem não é deficiente, não trata cansaço genérico.

Vitamina B12

A B12 é um caso de indicação legítima e bem delimitada. Ela vem quase exclusivamente de alimentos de origem animal e depende de um mecanismo de absorção no estômago e no intestino que pode falhar.

Merecem atenção: vegetarianos estritos e veganos, em que a suplementação não é opcional; pessoas que passaram por cirurgia bariátrica; quem usa metformina ou inibidores de bomba de próton por muitos anos; e idosos, em que a capacidade de absorção cai com a idade. A deficiência de B12 é traiçoeira porque pode se manifestar como formigamento, alteração de equilíbrio, dificuldade de memória e alterações de humor — sintomas que se confundem facilmente com “coisa da idade”.

Quem se beneficia de verdade: os grupos acima, idealmente com dosagem antes e depois. O que ela não faz: não melhora energia, humor ou memória em quem tem nível normal.

Multivitamínico

O multivitamínico é o suplemento mais vendido do mundo com a evidência mais decepcionante em desfechos que importam. Ele não reduz mortalidade, não previne câncer, não previne doença cardiovascular.

Há uma exceção que merece honestidade, porque é evidência de boa qualidade e vai contra o meu argumento geral. O programa de estudos COSMOS testou multivitamínico e cognição em idosos, e a análise publicada em 2024 no American Journal of Clinical Nutrition reuniu três estudos de cognição dentro do COSMOS e encontrou benefício estatisticamente significativo sobre função cognitiva, com efeito mais claro em memória episódica do que em atenção e função executiva. O efeito é modesto, foi obtido em idosos e ainda não mudou recomendação de sociedades. Mas está lá, e seria desonesto omitir.

Quem se beneficia de verdade: pessoas com dieta restrita ou má absorção; possivelmente idosos, quanto a cognição, com efeito modesto. O que ele não faz: não compensa alimentação ruim, não previne doença grave, não é “seguro por ser vitamina” — polivitamínicos costumam conter biotina, e é aí que entra o problema da próxima seção.

Sobre a vitamina D, que é a queixa mais frequente de todas, escrevi um artigo dedicado a quando e como fazer reposição, porque o assunto não cabe num parágrafo.

Para cabelo, pele e unha: biotina

Se você ler só uma seção deste artigo, leia esta. A biotina é o suplemento mais inofensivo em aparência e o mais perigoso em consequência indireta.

Primeiro, o que ela faz: em pessoas com deficiência real de biotina — que é raríssima —, a reposição corrige. Em quem não tem deficiência, não há boa evidência de que ela engrosse cabelo, fortaleça unha ou melhore pele. Queda de cabelo tem várias causas, e falta de biotina praticamente não é uma delas.

Agora, o problema sério. A biotina em dose alta interfere fisicamente na química de muitos exames de laboratório, porque vários testes usam a interação entre biotina e uma proteína chamada estreptavidina como parte do método. Resultado: o exame mede errado.

A FDA americana mantém alerta de segurança sobre isso e afirma que a preocupação principal é a troponina falsamente baixa — a troponina é o exame que confirma infarto no pronto-socorro. Uma pessoa com dor no peito, tomando biotina em dose alta para o cabelo, pode ter um exame de troponina falsamente tranquilizador. Há também descrição de TSH falsamente baixo e hormônios tireoidianos falsamente altos, o que pode simular um problema de tireoide que não existe — e gerar tratamento desnecessário. Testes de gravidez e outras dosagens hormonais também podem ser afetados.

Se você usa biotina, ou qualquer polivitamínico ou fórmula de cabelo e unha, avise antes de qualquer coleta de sangue e avise na emergência. Essa informação simples pode evitar um diagnóstico errado nos dois sentidos: um infarto que passa batido ou uma doença de tireoide inventada por um exame contaminado.

Sobre o colágeno, o outro grande vendido dessa prateleira, já escrevi por que ele não funciona como você gostaria.

Quem se beneficia de verdade: quem tem deficiência comprovada de biotina, o que é raro. O que ela não faz: não melhora cabelo, pele e unha em quem não é deficiente — e pode estragar seus exames.

Para “desintoxicar”: NAC

A N-acetilcisteína virou estrela de conteúdo de longevidade e detox nos últimos anos. Tem uma ironia nisso: no Brasil, NAC não é suplemento. É medicamento de farmácia, com bula, vendido como mucolítico — é o Fluimucil e seus genéricos, aquele sachê efervescente que a mãe dava para soltar o catarro.

As indicações reais são duas, e ambas são hospitalares ou clínicas. A primeira é como antídoto de intoxicação por paracetamol, em que a NAC salva o fígado e salva vidas. A segunda é como mucolítico em doença pulmonar, e aqui a evidência é interessante justamente por não ser unânime. O estudo PANTHEON, publicado por Zheng e colaboradores em 2014 na Lancet Respiratory Medicine, mostrou redução de exacerbações em pacientes com DPOC moderada a grave usando dose alta. Mas um ensaio randomizado com quase mil pacientes publicado em 2024 na Nature Communications não encontrou redução das exacerbações nem melhora da função pulmonar em pacientes com DPOC leve a moderada. Ou seja: parece funcionar em quem tem doença estabelecida e exacerba com frequência, e não funcionar em quem tem doença leve.

Para pessoa saudável, tomando “para desintoxicar o fígado” ou “para o glutation”? Não há evidência que sustente. E há uma interação que quase ninguém conhece: a NAC potencializa o efeito de vasodilatadores nitratos, podendo causar queda importante de pressão em quem usa esses medicamentos para o coração.

Quem se beneficia de verdade: intoxicação por paracetamol e alguns pacientes com DPOC ou bronquite crônica, por indicação médica. O que ela não faz: não desintoxica ninguém, não é antioxidante de uso preventivo, não tem papel estabelecido em pessoa saudável.

O que ninguém conta na hora de vender

Suplemento interage com remédio

A frase “é natural, não faz mal” já causou dano suficiente. Alguns exemplos concretos que aparecem no consultório:

  • Berberina e metformina ou outros antidiabéticos: potencialização do efeito, com risco de hipoglicemia.
  • NAC e nitratos: potencialização do efeito vasodilatador, com risco de queda de pressão.
  • Vitamina K em fórmulas e varfarina: redução do efeito do anticoagulante, com risco de trombose.
  • Berberina e imunossupressores de transplante: alteração de níveis do medicamento.
  • Ômega 3 em dose alta com anticoagulantes ou antiagregantes: possível aumento do risco de sangramento.

Se você usa qualquer medicamento contínuo, leve a lista completa do que toma — remédios e suplementos — para a consulta. É a informação mais barata e mais útil que você pode me dar.

O rótulo não garante o conteúdo

Suplemento no Brasil é regulado como alimento, não como medicamento, o que significa exigência regulatória diferente da de um remédio. Variação de pureza entre marcas e produtos com dose diferente da declarada são problemas documentados no setor. Comprar de fabricante estabelecido e desconfiar de fórmula importada informal e de “blend proprietário” que não detalha as quantidades é o mínimo.

E há a categoria dos produtos que sequer deveriam existir: fórmulas manipuladas vendidas em rede social, com combinações de dezenas de substâncias, prometendo emagrecimento ou rejuvenescimento. Aí não é suplementação, é aposta.

O suplemento que estraga o seu exame

Já falei da biotina, mas o princípio é mais amplo e vale repetir de outra forma: suplemento em dose alta pode mudar o resultado do seu exame de sangue sem mudar a sua saúde. Creatina eleva creatinina. Biotina falseia troponina e TSH. Vitamina C em megadose pode interferir em alguns testes. Um exame alterado gera outro exame, que gera um encaminhamento, que gera um procedimento — a cascata de exames que começou com um pote comprado por conta própria. É iatrogenia que ninguém previu.

Quando o seu caso muda tudo

Tudo o que escrevi acima descreve o adulto comum, sem doença grave e sem uso de muitos medicamentos. Existem situações em que essas conclusões mudam por completo, e nenhuma delas se resolve por leitura de artigo:

Gestação e amamentação. Ácido fólico antes de engravidar e no primeiro trimestre tem indicação sólida e específica. Ao mesmo tempo, várias substâncias deste artigo são contraindicadas — a berberina, por risco ao bebê, e a melatonina, por falta de dados. Suplementação na gestação se faz no pré-natal, item por item.

Doença renal crônica. Rim com função reduzida muda a segurança de creatina, de potássio, de magnésio e de várias outras substâncias. Nada aqui se aplica sem avaliação da função renal.

Uso de anticoagulante. Quem usa varfarina ou anticoagulantes mais novos precisa checar qualquer suplemento novo antes de começar. Vitamina K e ômega 3 em dose alta são os dois casos mais lembrados, mas não os únicos.

Transplantados e pessoas em uso de imunossupressor. A margem de segurança desses medicamentos é estreita, e interação com fitoterápico ou suplemento pode custar o enxerto.

Idoso usando muitos medicamentos. Aqui a conversa geralmente vai no sentido oposto ao de acrescentar. Acrescentar suplemento a uma lista que já tem oito ou dez itens aumenta risco de interação e de confusão de horário. Muitas vezes o melhor a fazer é reavaliar o que pode sair.

Crianças e adolescentes. Praticamente nenhuma das substâncias deste artigo foi estudada nessa faixa de idade com qualidade suficiente para uso rotineiro, e a melatonina em suplemento é expressamente restrita a maiores de dezenove anos no Brasil. Adolescente que quer ganhar músculo se beneficia de comida, treino e sono — não de pote.

Cirurgia bariátrica. É a situação em que suplementação deixa de ser escolha e passa a ser parte obrigatória do tratamento, com esquema definido e monitorado.

Conclusão

Voltando à porta do consultório.

Quando o paciente pergunta se vale a pena tomar aquele suplemento, ele espera um sim ou um não. A resposta útil quase nunca é uma das duas. É outra pergunta: o que você está tentando resolver?

Porque na maior parte das vezes o suplemento é a resposta certa para a pergunta errada. A pessoa dorme mal porque leva o celular para a cama, e compra magnésio. Está sem energia porque dorme cinco horas e não se exercita, e compra multivitamínico. Quer perder peso sem mudar nada, e compra berberina. O pote é mais fácil de comprar do que o hábito é de mudar, e a indústria sabe disso melhor do que qualquer um.

Isso não significa que suplemento seja tudo bobagem. Creatina funciona para quem treina. Proteína funciona para quem não come o suficiente. Ferro, B12 e vitamina D funcionam para quem tem falta comprovada. Ácido fólico na gestação previne malformação. NAC salva fígado intoxicado. São indicações reais, específicas, e algumas delas importantes.

O que elas têm em comum é que todas dependem de saber algo sobre você — um exame, um diagnóstico, uma lista de medicamentos, um hábito de treino, uma fase da vida. Nenhuma dessas informações está disponível para quem faz o vídeo que apareceu no seu celular. Ele não sabe sua creatinina, não sabe que você usa varfarina, não sabe que você tem pré-diabetes.

Por isso a recomendação final deste artigo é simples e sem glamour: antes de comprar qualquer suplemento, converse com o seu médico e leve a lista de tudo o que você já toma. Não porque exista alguma autoridade mística na figura do médico, mas porque a resposta depende de dados sobre você que só existem na consulta. E porque, com alguma frequência, a melhor conduta vai ser subtrair em vez de somar.

Como escrevi no texto sobre medicina sem pressa: na dúvida, não intervenha.

Um forte abraço.

Perguntas frequentes

Quem é saudável precisa tomar suplemento? Na maioria dos casos, não. Uma pessoa saudável, com alimentação variada e sem condição clínica específica, não obtém benefício demonstrado da maioria dos suplementos vendidos. As exceções dependem de contexto: creatina para quem faz treino de força, proteína para quem não alcança a ingestão diária necessária, ácido fólico antes e no início da gestação, e reposição de vitaminas ou minerais quando há deficiência comprovada em exame.

Creatina faz mal para o rim? Em pessoas com função renal normal, não há evidência de que a creatina em doses habituais cause dano aos rins. Ela eleva discretamente a creatinina do sangue, que é um produto do seu metabolismo, e isso pode ser confundido com piora da função renal em um exame de rotina. Quem tem doença renal deve usar creatina apenas com avaliação médica, e todos devem informar o uso antes de coletar exames.

Magnésio ajuda mesmo a dormir? A evidência é fraca. A metanálise disponível em idosos com insônia encontrou redução de cerca de dezessete minutos no tempo para pegar no sono, mas com estudos de risco de viés moderado a alto e qualidade de evidência classificada como baixa a muito baixa. Deficiência real de magnésio é incomum em quem se alimenta bem. Medidas de higiene do sono têm efeito maior e melhor documentado.

Berberina emagrece como o Ozempic? Não. A revisão sistemática mais robusta encontrou redução média de menos de um quilo de peso corporal com berberina, um efeito muito distante do obtido com medicamentos análogos de GLP-1. A berberina também interage com medicamentos metabolizados pelo fígado, incluindo a metformina, e é contraindicada na gestação e amamentação.

Biotina atrapalha exame de sangue? Sim. A biotina em dose alta interfere em vários exames laboratoriais que utilizam a interação biotina-estreptavidina em seu método. A FDA alerta especialmente para resultados falsamente baixos de troponina, o exame usado para diagnosticar infarto, e há descrição de TSH falsamente baixo e hormônios tireoidianos falsamente altos. Quem usa biotina ou polivitamínico deve informar antes de qualquer coleta e na emergência.

Referências

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*A Imagem que ilustra esse artigo foi gerado por inteligência artificial.

Dr. Angelo Bannack - Médico de Família

Dr. Angelo Bannack

Dr. Angelo Bannack é médico de família e comunidade em Curitiba, com atuação em consultório particular e atendimento domiciliar. Trabalha com foco em prevenção, check-ups personalizados e acompanhamento contínuo baseado em evidências.

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