Era a última consulta da manhã quando a Dona Lúcia (nome fictício, história composta de muitas que ouço) tirou três coisas da bolsa e enfileirou sobre a mesa: uma caneta de Ozempic pela metade, emprestada da irmã; um papel com uma tabela de cliques que circulava no grupo da família; e, no celular, a foto de uma “semaglutida genérica” que custava bem menos na farmácia do bairro.
— Doutor, é tudo a mesma coisa, né? Só preciso saber quantos cliques dá a minha dose.
Não era tudo a mesma coisa. E a pergunta dela resume bem o que mudou em 2026: a patente da semaglutida caiu, chegaram as versões sintéticas e os genéricos, e com eles uma onda de dúvidas (e de improvisos) sobre como usar essas canetas.
Neste artigo, atualizado em outubro de 2026, explico como as canetas emagrecedoras funcionam, a diferença entre liraglutida, semaglutida e tirzepatida, o que distingue a semaglutida biológica (Ozempic, Wegovy, Poviztra) da sintética (Ozivy e genéricos), por que contar cliques é arriscado, como evitar perder músculo e o que vale para crianças e adolescentes. Se você quer entender antes a doença por trás de tudo isso, comece pelo meu artigo sobre obesidade e quando o excesso de peso faz mal.
A resposta curta: canetas emagrecedoras são remédios injetáveis que imitam hormônios de saciedade, e nos grandes estudos levaram a uma perda média de cerca de 8% a 20% do peso, conforme a molécula (Wilding e colaboradores, NEJM 2021; Jastreboff e colaboradores, NEJM 2022). A semaglutida sintética tem o mesmo princípio ativo da biológica, mas hoje está aprovada pela Anvisa apenas para diabetes tipo 2 em adultos, em doses de até 1 mg por semana. Para tratar obesidade, as semaglutidas aprovadas continuam sendo o Wegovy e o Poviztra.
Este texto é informativo. Começar, ajustar ou trocar qualquer um desses remédios é decisão a ser tomada com o seu médico.
Boa leitura.
📋 O essencial deste artigo
- Canetas emagrecedoras imitam hormônios de saciedade; nos estudos, a perda média foi de cerca de 8% (liraglutida), 15% (semaglutida 2,4 mg) e 20% (tirzepatida) do peso.
- Desde 2026 o Brasil tem semaglutida sintética (Ozivy, genéricos e outras marcas): mesmo princípio ativo, outra forma de fabricar e, por enquanto, aprovação só para diabetes tipo 2 em adultos.
- Contar cliques para tirar da caneta doses fora das previstas contraria a bula, não tem estudo que sustente e pode entregar mais que o dobro do remédio pretendido.
- Treino de força e proteína em todas as refeições são a principal defesa contra a perda de músculo, que pode ser de quase 4 em cada 10 quilos perdidos (massa magra).
- Para obesidade, canetas só são aprovadas a partir dos 12 anos, sempre junto com mudança de hábitos; abaixo disso, nenhuma é aprovada no Brasil.
- Ao parar o remédio, o peso tende a voltar em cerca de um ano e meio: obesidade é doença crônica, e o plano de manutenção faz parte do tratamento.
O que são as canetas emagrecedoras e como elas funcionam?
Canetas emagrecedoras são medicamentos injetáveis, aplicados no tecido subcutâneo (a camada de gordura logo abaixo da pele), que imitam hormônios produzidos pelo intestino depois das refeições: o GLP-1 e, no caso da tirzepatida, também o GIP.
Pense nesses hormônios como mensageiros da saciedade. Você come, o intestino percebe a comida chegando e manda um recado ao cérebro: “pode parar, já chegou o suficiente”. Em muitas pessoas com obesidade, esse recado chega fraco, atrasado ou é ignorado.
As canetas fazem o papel de um mensageiro mais insistente e muito mais duradouro. O GLP-1 natural dura poucos minutos no sangue; a semaglutida dura cerca de uma semana. O resultado:
- menos fome ao longo do dia;
- saciedade mais rápida durante a refeição;
- esvaziamento do estômago mais lento;
- melhor controle da glicose;
- menos do chamado “ruído alimentar” (aquele pensamento constante em comida).
Não é falta de força de vontade. É hormônio. E justamente por isso o remédio funciona enquanto é usado, um ponto ao qual voltaremos.
No Brasil, as canetas mais usadas trazem três moléculas (existe ainda a dulaglutida, Trulicity, indicada para diabetes):
- Liraglutida, de aplicação diária: Saxenda (obesidade), Victoza (diabetes) e as versões da EMS, Olire e Lirux.
- Semaglutida, semanal: Wegovy e Poviztra (obesidade), Ozempic e Extensior (diabetes), além das semaglutidas sintéticas lançadas em 2026, como o Ozivy e os genéricos.
- Tirzepatida, semanal: Mounjaro.
Liraglutida, semaglutida ou tirzepatida: qual a diferença?
As três diferem em quantos hormônios imitam, em quantas vezes são aplicadas e em quanto peso fazem perder, em média. Os números abaixo vêm dos estudos que levaram à aprovação de cada uma, sempre combinadas com dieta e atividade física.
Liraglutida (Saxenda)
Age em um receptor só, o do GLP-1, e é aplicada todos os dias. No estudo SCALE, quem usou liraglutida 3 mg perdeu em média 8,4 kg em 56 semanas, contra 2,8 kg no grupo placebo (Pi-Sunyer e colaboradores, NEJM 2015), algo perto de 8% do peso.
Semaglutida (Wegovy, Poviztra, Ozempic e similares)
Também age só no GLP-1, mas dura uma semana. No estudo STEP 1, a dose de 2,4 mg levou a uma perda média de cerca de 15% do peso em 68 semanas, contra 2,4% no placebo (Wilding e colaboradores, NEJM 2021).
O estudo SELECT mostrou que, em pessoas com obesidade e doença cardiovascular prévia, sem diabetes, a semaglutida 2,4 mg reduziu em 20% o risco de infarto, AVC e morte cardiovascular (Lincoff e colaboradores, NEJM 2023).
Duas novidades recentes:
- Dose de 7,2 mg. Em abril de 2026, a Anvisa aprovou para o Wegovy uma dose mais alta, aplicada como três injeções seguidas de 2,4 mg no mesmo dia da semana. Ela é reservada a adultos com IMC de 30 ou mais que não tiveram resposta adequada depois de pelo menos quatro semanas na dose de 2,4 mg. Trouxe perda adicional, mas principalmente para uma parcela menor dos pacientes, e alterações de sensibilidade na pele (disestesia) foram mais frequentes.
- Gordura no fígado com inflamação. Desde dezembro de 2025, o Wegovy também é aprovado para esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH) com fibrose moderada a avançada, sem cirrose. No estudo ESSENCE, a inflamação se resolveu em 63% de quem usou semaglutida, contra 34% no placebo (Sanyal e colaboradores, NEJM 2025). Falo mais do tema no artigo sobre gordura no fígado.
Tirzepatida (Mounjaro)
Age em dois receptores, GLP-1 e GIP. No estudo SURMOUNT-1, a dose de 15 mg levou a uma perda média de cerca de 20% do peso em 72 semanas (Jastreboff e colaboradores, NEJM 2022), resultado que se aproxima do de algumas cirurgias bariátricas. Desde março de 2026, também existe em caneta multidose, com quatro aplicações por caneta.
Resumo prático
| Medicamento | Aplicação | Perda média nos estudos | Indicação aprovada no Brasil |
|---|---|---|---|
| Saxenda (liraglutida 3 mg) | diária | cerca de 8% | obesidade em adultos e a partir de 12 anos |
| Wegovy e Poviztra (semaglutida 2,4 mg) | semanal | cerca de 15% | obesidade em adultos e a partir de 12 anos; MASH (Wegovy) |
| Ozempic, Extensior e semaglutidas sintéticas (até 1 mg) | semanal | não estudadas para obesidade nessa dose | diabetes tipo 2 em adultos |
| Mounjaro (tirzepatida) | semanal | cerca de 20% | obesidade em adultos; diabetes tipo 2 em adultos e dos 10 aos 17 anos |
São médias. Há quem perca bem mais e quem perca pouco: a resposta individual varia, e é isso que o acompanhamento mede.
Semaglutida biológica ou sintética: o que muda?
A semaglutida do Ozempic, do Wegovy, do Extensior e do Poviztra é biológica: a cadeia principal da molécula é fabricada por uma levedura geneticamente modificada. A do Ozivy e das versões aprovadas em 2026 é sintética, montada por reações químicas, sem células vivas. O princípio ativo final é o mesmo; o caminho até ele é que muda.
Na versão biológica, a fábrica é viva. A levedura usada, a Saccharomyces cerevisiae (o mesmo fungo do pão e da cerveja), recebe um trecho de DNA com a “receita” da molécula e passa a produzi-la. Depois, por química, a molécula ganha uma “cauda” de gordura que a faz durar uma semana no sangue. É o que dizem as próprias bulas do Ozempic e do Poviztra. Um detalhe que vale corrigir, porque circula muito: não são bactérias, é levedura.
Na versão sintética, a molécula é montada como um colar de contas: os aminoácidos (as “contas”) são encaixados um a um, em sequência, até formar a cadeia completa.
Se o princípio ativo é o mesmo, onde mora a diferença? No que vem junto. Cada processo pode deixar seus próprios resíduos: na produção biológica, proteínas e fragmentos de DNA da levedura; na síntese, cadeias com uma conta a menos ou a mais, solventes e restos de metais usados nas reações; nos dois casos, o risco de as moléculas grudarem umas nas outras, formando agregados. Por isso, segundo a Anvisa, as semaglutidas sintéticas foram avaliadas com critérios dos dois mundos: controle de impurezas, agregados, esterilidade e imunogenicidade (o risco de o organismo produzir anticorpos contra o remédio, o que poderia torná-lo ineficaz ou causar reações).
Há um ponto de honestidade importante. Em março de 2026, a própria Anvisa registrou que nenhuma das grandes agências reguladoras (Estados Unidos, Europa, Japão) tinha aprovado uma semaglutida sintética até então. O registro brasileiro atesta qualidade, segurança e eficácia pelos critérios exigidos; o que ainda falta é tempo de uso no mundo real. Por isso a farmacovigilância (o registro de efeitos adversos depois que o remédio chega às farmácias) importa tanto.
Expliquei esse assunto em detalhe, com o passo a passo da fabricação e as regras de troca, em semaglutida sintética ou biológica: qual a diferença?.
Ozempic, Wegovy, Poviztra, Ozivy ou genérico: quem é quem?
Hoje há no Brasil cerca de quinze produtos registrados com semaglutida, que se dividem em três grupos: os biológicos da Novo Nordisk, as semaglutidas sintéticas com marca própria e os genéricos sintéticos (Futuro da Saúde, 2026). Saber em qual grupo está a sua caneta ajuda a entender para que ela foi aprovada e o que pode ser trocado.
| Produto | Origem | Para que está aprovado | Dose semanal máxima |
|---|---|---|---|
| Ozempic e Extensior | biológica (Novo Nordisk) | diabetes tipo 2 em adultos | 1 mg |
| Wegovy e Poviztra | biológica (Novo Nordisk) | obesidade ou sobrepeso com doença associada, em adultos e a partir de 12 anos | 2,4 mg (7,2 mg no Wegovy, em casos selecionados) |
| Ozivy (EMS) | sintética | diabetes tipo 2 em adultos | 1 mg |
| Owozy, Seemasun, Zempneo, Semavy e Orsema | sintética | diabetes tipo 2 em adultos | 1 mg |
| Genéricos (caixa com tarja amarela e a letra “G”) | sintética | diabetes tipo 2 em adultos | 1 mg |
Alguns detalhes que confundem:
- Extensior e Poviztra não são genéricos nem biossimilares. São fabricados pela própria Novo Nordisk, na Dinamarca, e vendidos com outra marca, distribuída pela Eurofarma desde outubro de 2025. Na prática, o Poviztra tem a mesma composição e as mesmas doses do Wegovy.
- O Ozivy não é genérico do Ozempic. Aprovado em maio de 2026, foi registrado como medicamento novo, por uma via abreviada. Em julho, passou a ser o medicamento de referência das semaglutidas sintéticas, e os genéricos aprovados em agosto são cópias dele, não do Ozempic.
- Medicamento biológico não tem genérico. Por isso as primeiras “cópias” do Ozempic precisaram ser sintéticas.
E a receita que diz “compre a mais barata”? Na farmácia, sem nova receita, a troca só é permitida entre o medicamento de referência e as cópias reconhecidas como intercambiáveis com ele, como o Ozivy e o seu genérico. Trocar a biológica pela sintética, ou entre marcas que não são cópias umas das outras, é decisão de quem prescreve. Alguns médicos já escrevem na receita as marcas aceitas, o que é legítimo, desde que a dose e a indicação façam sentido para aquela pessoa.
Um cuidado prático: quem trata obesidade com semaglutida 2,4 mg não tem equivalente sintético aprovado. As sintéticas param em 1 mg e foram aprovadas para diabetes. Usar uma caneta de diabetes para tratar obesidade é uso fora da bula (off-label), decisão que precisa ser discutida, não improvisada.
E, ao trocar de marca, lembre que cada caneta tem seu próprio mecanismo e suas próprias instruções de uso. Leia-as do começo, como se fosse a primeira vez.
Por que a dose sobe aos poucos, e o que fazer se esquecer uma aplicação?
A dose das canetas sobe em degraus, em geral a cada quatro semanas, para dar tempo ao estômago e ao intestino de se acostumarem e reduzir náusea e vômitos. Na semaglutida para obesidade, a escada costuma ser 0,25 → 0,5 → 1 → 1,7 → 2,4 mg; na tirzepatida, sobe de 2,5 em 2,5 mg.
Subir de dose não é sinal de que o remédio “parou de funcionar”: é o plano. E a dose de manutenção não é necessariamente a máxima. É a que dá o melhor equilíbrio entre resultado e tolerância para você. Às vezes é preciso ficar mais tempo num degrau, ou até descer um.
Esqueceu uma aplicação? As bulas brasileiras orientam:
- Liraglutida (Saxenda), diária: aplique se lembrar em até 12 horas; depois disso, pule e siga no horário de sempre (bula do Saxenda).
- Semaglutida (Ozempic, Wegovy, Poviztra), semanal: aplique em até 5 dias depois da data esquecida; passou disso, pule e mantenha o dia de sempre (bula do Ozempic).
- Tirzepatida (Mounjaro), semanal: o limite é de 4 dias (96 horas).
Nunca dobre a dose para compensar.
Na prática, as canetas semanais costumam ser mais fáceis de manter no longo prazo do que as diárias. E adesão é metade do tratamento.
Contar cliques na caneta é seguro?
Não. Contar cliques para tirar da caneta uma dose diferente das que ela foi feita para entregar é uma prática sem estudos que a sustentem, contrariada pelas próprias bulas e sujeita a erros que podem passar do dobro da dose pretendida.
A técnica circula em vídeos e tabelas: “tantos cliques equivalem a 0,25 mg”, “tantos cliques para uma microdose”. As razões vão de reduzir a náusea a economizar, esticar a caneta ou aproveitar o líquido que sobra no fim. No Brasil ela é ainda mais comum porque aqui as canetas do Wegovy e do Poviztra são multidose, com quatro aplicações e seletor giratório. Nos Estados Unidos, o Wegovy é vendido em caneta de dose única.
O que a bula diz, e onde ela se contradiz
A orientação é direta. A bula do Ozempic diz, com todas as letras: “Não conte os cliques do sistema de aplicação”. A dose deve ser conferida sempre no contador e no indicador de dose.
Mas, lida com atenção, a bula tem brechas que ajudam a explicar por que tanta gente desconfia dela:
- A caneta foi feita para clicar, só que não para contar. O seletor faz um clique a cada giro, mas a própria bula avisa que ele clica de modo diferente quando é girado para frente, para trás ou quando passa do limite de dose. O clique é um aviso mecânico, não uma régua.
- A posologia fala de doses que a caneta não entrega. Na bula da caneta de 1 mg do Ozivy, a seção de posologia descreve o início do tratamento com 0,25 mg e 0,5 mg, enquanto as instruções de uso dizem que, naquela caneta, só doses de 1 mg devem ser selecionadas (bula do Ozivy). O texto não explica, ali, que o começo exige outra apresentação, e quem só tem a caneta de 1 mg fica tentado a “achar” a dose menor no meio do caminho.
- Sobra líquido, e a bula não diz por quê. As canetas trazem uma quantidade nominal (a de 1 mg, por exemplo, tem 4 mg, para quatro doses) e mandam descartar quando o contador não chega à dose completa. Nada é dito sobre o volume que permanece lá dentro. É essa sobra que alimenta a ideia de “raspar” a caneta com cliques.
Nenhuma dessas brechas autoriza o improviso. Elas só mostram que a bula foi escrita para quem usa as doses previstas, e qualquer coisa fora disso fica sem rede de proteção.
Por que o erro pode ser grande
- A concentração muda de uma caneta para outra. As canetas de Ozempic têm 1,34 mg de semaglutida por mililitro; a caneta de 2,4 mg do Wegovy e do Poviztra tem 3,2 mg/mL (bula do Poviztra). O mesmo volume de líquido carrega 2,4 vezes mais remédio na caneta mais concentrada. Uma tabela de cliques feita para uma caneta está errada para a outra.
- Cada fabricante tem seu mecanismo. As canetas sintéticas, os genéricos e a nova caneta multidose do Mounjaro, que existe em seis concentrações diferentes, de 4,17 a 25 mg/mL (ICTQ, 2026), não seguem a tabela de cliques de ninguém.
- Posições intermediárias não foram testadas. O contador foi calibrado para as doses da bula; ninguém garantiu a precisão do “meio do caminho”.
- O prazo da caneta aberta estoura. Ozempic, Wegovy e Poviztra valem 6 semanas depois do primeiro uso; passado esse prazo, a bula manda descartar mesmo que ainda haja produto. Microdoses esticam a caneta para além disso.
- As agulhas acabam antes da caneta. Quando a caneta dura mais, cresce a tentação de reaproveitar agulha, o que aumenta o risco de infecção e de entupimento.
- A receita diz uma coisa, você faz outra. Se você for internado, a equipe vai seguir a dose da receita, não a dos cliques. O ISMP, instituto americano dedicado à segurança no uso de medicamentos, registra esse tipo de descompasso, além de erros de contagem por distração, tremor ou dificuldade para ouvir (ISMP, 2025).
- Não há estudo de “microdose”. O próprio fabricante não recomenda a contagem de cliques, e não existem estudos que mostrem eficácia ou segurança desse método.
Se o objetivo é uma dose menor, porque a náusea apertou ou porque chegou a hora de reduzir na manutenção, isso existe e se faz com as doses que as canetas foram feitas para entregar, com orientação médica. A escada de 0,25 a 2,4 mg tem degraus de sobra para isso.
Se você já usa a técnica dos cliques, não mude nada por conta própria depois de ler este texto. Leve a caneta e a tabela à próxima consulta e revise o esquema com o seu médico.
Procure atendimento se, depois de uma aplicação, surgirem vômitos que não param, incapacidade de beber líquidos, tontura ao levantar ou dor abdominal forte. Em quem tem diabetes e usa insulina ou sulfonilureia, fique atento também aos sinais de hipoglicemia (tremor, suor frio, confusão).
Quem pode usar canetas emagrecedoras, e quem não pode?
Em adultos, as canetas para obesidade são indicadas quando o IMC é de 30 kg/m² ou mais, ou de 27 kg/m² ou mais com alguma complicação ligada ao excesso de peso, como diabetes tipo 2, pressão alta, colesterol alterado, apneia do sono ou artrose. É a recomendação da Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade de 2026, da ABESO, com o maior grau de evidência (classe I, nível A).
A diretriz também abre espaço, com evidência mais fraca, para considerar o tratamento quando a cintura está aumentada (por exemplo, quando a relação cintura-altura passa de 0,5) e há complicações, mesmo que o IMC não chegue a esses números.
O IMC se calcula dividindo o peso (em kg) pela altura (em metros) ao quadrado. Uma pessoa com 1,65 m e 90 kg tem IMC de 33.
Canetas emagrecedoras não são tratamento estético. Usá-las para “secar” alguns quilos, sem indicação, expõe a riscos sem benefício que compense.
Não devem usar:
- quem tem história pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou de neoplasia endócrina múltipla tipo 2;
- gestantes, lactantes e quem está tentando engravidar (no caso da semaglutida, a orientação é suspender pelo menos dois meses antes de uma gravidez planejada);
- quem tem alergia ao medicamento.
Pedem avaliação caso a caso: pancreatite prévia, doença da vesícula, gastroparesia grave, doença renal avançada, retinopatia diabética e transtornos alimentares.
Canetas emagrecedoras em crianças e adolescentes: quando são indicadas?
No Brasil, canetas para tratar obesidade só são aprovadas a partir dos 12 anos (a liraglutida, como Saxenda, e a semaglutida 2,4 mg, como Wegovy e Poviztra) e sempre como complemento de um programa estruturado de mudança de hábitos, nunca como primeiro passo.
Por faixa etária, o cenário é este:
- Abaixo de 6 anos: não há remédio indicado. O tratamento é a mudança de hábitos da família.
- De 6 a 11 anos: nenhuma caneta é aprovada para obesidade. A liraglutida foi estudada nessa idade: no estudo SCALE Kids, o IMC caiu em média 5,8% em 56 semanas, enquanto no grupo placebo subiu 1,6% (Fox e colaboradores, NEJM 2025). Mas, no Brasil, esse uso é fora da bula, e a própria bula do Saxenda não o recomenda abaixo dos 12 anos.
- De 12 a 17 anos: o Saxenda é indicado para adolescentes com peso acima de 60 kg e IMC equivalente a 30 ou mais no adulto. O Wegovy e o Poviztra, para adolescentes com obesidade (IMC no percentil 95 ou acima, nas curvas de crescimento) e peso acima de 60 kg. No estudo STEP TEENS, a semaglutida reduziu o IMC em 16,1% em 68 semanas, contra aumento de 0,6% no placebo (Weghuber e colaboradores, NEJM 2022).
- Tirzepatida: em menores de 18 anos, está aprovada apenas para diabetes tipo 2, dos 10 aos 17 anos, não para obesidade.
- Ozempic e semaglutidas sintéticas: aprovados só para adultos.
Mesmo dentro da faixa aprovada, a indicação não é automática. O posicionamento brasileiro sobre obesidade pediátrica, da ABESO e da Sociedade Brasileira de Pediatria, reserva o remédio para a obesidade grave (IMC igual ou acima de 120% do percentil 95, ou escore-z de +3 ou mais), sobretudo com complicações cardiometabólicas; para quando a obesidade compromete a saúde emocional e a adesão ao tratamento; ou para quando houve falha documentada de um programa estruturado de mudança de hábitos.
As contraindicações são as mesmas dos adultos: história pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou NEM 2, gravidez e amamentação, alergia ao produto. Transtornos alimentares precisam ser tratados antes. E a Sociedade Brasileira de Pediatria chama atenção, em alerta de agosto de 2026, para os riscos que pesam mais nessa idade: prejuízo ao crescimento e ao desenvolvimento, perda de massa magra, desidratação, pedra na vesícula, pancreatite e distúrbios de imagem corporal.
As bulas pedem reavaliação após 12 semanas na dose de manutenção. Se, depois de seis meses na dose plena e com adesão comprovada, o escore-z do IMC não cair pelo menos 5%, o posicionamento recomenda reconsiderar o tratamento, sempre com um plano para depois, porque o reganho é comum.
Caneta em adolescente com peso adequado, para “secar” ou caber num padrão estético, não é tratamento. É risco.
Efeitos colaterais: o que esperar?
Os efeitos colaterais mais comuns das canetas emagrecedoras são gastrointestinais (náusea, prisão de ventre ou diarreia, refluxo, estufamento e arrotos) e costumam melhorar com o tempo, principalmente quando a dose sobe devagar.
O que ajuda: refeições menores, menos gordura e fritura, comer devagar e parar ao primeiro sinal de saciedade, não deitar logo depois de comer e beber água ao longo do dia.
Mais raros, mas importantes:
- Pancreatite. Em fevereiro de 2026, a Anvisa divulgou 145 notificações de suspeita de pancreatite ligadas a esses medicamentos entre 2020 e 2025, seis com desfecho fatal suspeito, e um aumento de 60,7% em 2025 em relação a 2024 (Afya, 2026). Notificação não prova causa, mas o sinal merece atenção. Dor abdominal forte e persistente, que pode irradiar para as costas, com vômitos, é motivo para procurar atendimento no mesmo dia.
- Problemas de vesícula, mais comuns quando a perda de peso é rápida.
- Neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NOIANA), uma lesão do nervo da visão. Em junho de 2025, a Anvisa determinou a inclusão desse evento, classificado como muito raro, nas bulas da semaglutida (CFF, 2025); em setembro de 2026, a agência passou a apurar 11 suspeitas ligadas às canetas (SBT News, 2026). Perda súbita de visão, ou piora rápida da visão, pede atendimento imediato.
- Reações no local da aplicação.
Se você suspeitar de um efeito adverso, além de falar com seu médico, ele pode ser notificado à Anvisa pelo VigiMed. É assim que sinais como esses aparecem. Expliquei como funciona a farmacovigilância em outro artigo.
Quais os benefícios além do peso?
Os benefícios das canetas vão além da balança: há redução comprovada de eventos cardiovasculares, melhora da gordura no fígado com inflamação e melhor controle da glicose.
- Coração. Além do SELECT, a diretriz brasileira de 2026 recomenda a semaglutida para reduzir eventos cardiovasculares em pessoas com obesidade e doença aterosclerótica, sem diabetes (classe I, nível B), e a semaglutida ou a tirzepatida na insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, para aliviar sintomas e melhorar a qualidade de vida (classe I, nível B).
- Fígado. A aprovação para MASH e a recomendação da diretriz (classe I, nível B) colocam a semaglutida entre as opções para quem tem gordura no fígado com inflamação e fibrose.
- Glicose. Para quem está na fase de pré-diabetes ou já tem diabetes, a perda de peso e o efeito direto na glicose andam juntos.
- Sono e articulações. A tirzepatida é aprovada para apneia obstrutiva do sono moderada a grave em adultos com obesidade, e menos peso significa menos carga sobre joelhos com artrose.
Como guardar a caneta?
Antes do primeiro uso, a caneta fica na geladeira, entre 2 °C e 8 °C, longe do congelador. Depois de aberta, a maioria pode ficar em temperatura ambiente abaixo de 30 °C, pelo prazo que a bula define.
- Ozempic, Wegovy e Poviztra: 6 semanas após o primeiro uso.
- Saxenda: 1 mês.
- Mounjaro em caneta de dose única: pode ficar fora da geladeira, abaixo de 30 °C, por até 21 dias antes de ser usado; na caneta multidose, as quatro aplicações devem ser feitas dentro do prazo indicado na bula.
- Semaglutidas sintéticas e genéricos: cada fabricante tem a sua bula. Confira o prazo na da sua caneta.
Nunca congele (se congelou, descarte), mantenha a caneta tampada para proteger da luz e não a deixe no carro ao sol. Em viagens, as bolsas térmicas usadas para insulina resolvem bem.
E uma regra sem exceção: caneta é pessoal. Mesmo trocando a agulha, ela não deve ser compartilhada. A da irmã fica com a irmã.
Caneta do Paraguai, manipulada ou aplicada em clínica: quais os riscos?
Canetas sem registro na Anvisa (trazidas do Paraguai, compradas pela internet ou manipuladas) não têm garantia de conteúdo, de dose nem de conservação, e o barato pode sair muito caro.
Falsificação e dose errada
Em julho de 2026, a SBD, a SBEM e a ABESO divulgaram um posicionamento conjunto citando análises de laboratório de canetas de tirzepatida vindas do Paraguai, em que uma amostra tinha concentração cerca de 60% maior do que a do rótulo: uma “dose de 10 mg” entregaria perto de 16 mg. E o registro paraguaio não tem validade no Brasil.
Quebra da cadeia de frio
Esses remédios são peptídeos, e peptídeos estragam com calor. Uma caneta que passou horas num porta-malas na fronteira pode chegar sem efeito, e você não tem como saber.
Ausência de rastreabilidade
Sem lote rastreável e nota fiscal, não há como investigar um efeito adverso, nem recolher um lote com problema.
E a semaglutida vendida no Paraguai?
A semaglutida vendida no Paraguai pode ser o próprio Ozempic, que é biológico, ou marcas locais cuja forma de fabricação não é divulgada, e nenhuma delas tem registro no Brasil. O que se chama de “Ozempic paraguaio”, muitas vezes, nem é Ozempic.
Lá, a Dinavisa (a agência sanitária paraguaia) aprovou o Ozempic e diz ter registrado outras semaglutidas para diabetes tipo 2 (ABC Color, 2024). Entre as marcas locais vendidas no país estão o Semaglix, do laboratório Quimfa, e o Delgacil, do Catedral (Pharmabiz, 2024). Nem os fabricantes nem a Dinavisa informam publicamente se essas marcas usam semaglutida sintética ou biológica, nem de onde vem o princípio ativo. Em outras palavras: não dá para saber. E, sem inspeção da fábrica por uma autoridade brasileira, nem uma informação impressa na caixa poderia ser conferida.
Três pontos práticos:
- Até setembro de 2026, segundo a Anvisa, nenhum laboratório paraguaio tinha pedido registro no Brasil (Estado de Minas, 2026). Ou seja, nenhuma dessas marcas passou pela avaliação de impurezas, agregados e imunogenicidade exigida das semaglutidas sintéticas registradas aqui.
- Mesmo o Ozempic original, comprado lá, entra no Brasil de forma irregular, sem controle de lote e sem garantia de transporte refrigerado. Desde janeiro de 2026, a Anvisa trata qualquer caneta desse tipo sem registro brasileiro como produto irregular (Band, 2026).
- Há semaglutida paraguaia vendida em frasco, para aspirar com seringa, e canetas anunciadas com “até 12 aplicações”, o que pressupõe doses fracionadas. Nos Estados Unidos, a FDA documentou overdoses de 5 a 20 vezes a dose pretendida com semaglutida em frasco, por confusão entre as unidades da seringa e os mililitros (HealthDay, 2024).
Manipulação
Desde agosto de 2025, a Anvisa proíbe a manipulação de semaglutida em farmácias de manipulação. A tirzepatida manipulada ainda é permitida sob regras mais rígidas, mas está sob fiscalização intensa: só em 2026 foram mais de 30 operações em farmácias que produzem esses medicamentos, metade com a Polícia Federal (Futuro da Saúde, 2026). A diretriz da ABESO de 2026 recomenda não usar produtos manipulados no tratamento da obesidade.
Aplicação em clínicas
Desde junho de 2025, pela RDC nº 973/2025 da Anvisa, esses remédios só são vendidos com receita retida em duas vias, válida por até 90 dias e em nome do paciente. São canetas de aplicação em casa. Segundo as sociedades médicas, a venda direta do produto em consultório pode conflitar com o Código de Ética Médica.
Como não perder músculo usando caneta emagrecedora?
Para preservar músculo durante o tratamento, as duas medidas com melhor evidência são treino de força, duas a três vezes por semana, e proteína suficiente em todas as refeições. O remédio tira a fome; ele não escolhe o que você perde.
Quando o peso cai, cai junto um pouco de massa magra, e isso acontece em qualquer emagrecimento, seja com dieta, cirurgia ou remédio. O que preocupa nas canetas é o tamanho e a velocidade. No estudo STEP 1, dos cerca de 13,6 kg perdidos, perto de 5,3 kg eram massa magra: quase 4 em cada 10 quilos. Como o músculo é mais ou menos metade da massa magra, algo como um quinto do peso perdido foi músculo. Estimativas sem treino de força chegam a 10% a 15% do peso perdido em mulheres e a 20% a 25% em homens (Mozaffarian e colaboradores, Obesity 2025).
Por que isso importa? Músculo não é enfeite. É onde o corpo guarda e queima boa parte da glicose, é o que sustenta as articulações e é o que separa um tropeço de uma queda. Depois dos 60, perder músculo rápido pode antecipar a fraqueza e as quedas.
A balança não distingue gordura de músculo. Você precisa distinguir.
O que fazer, na prática:
- Treino de força. A diretriz brasileira de 2026 recomenda de 150 a 300 minutos por semana de atividade aeróbica moderada (ou 75 a 150 de vigorosa), somados a treino resistido e alongamento (classe I, nível B), em geral com duas a três sessões de força por semana. Musculação, elásticos, pilates com carga, exercícios com o peso do corpo: vale o que você conseguir manter. Detalhei como começar em exercício físico: como e o que fazer.
- Proteína em toda refeição. Durante a fase de perda de peso, um consenso de sociedades americanas de nutrição e obesidade propõe de 1,2 a 1,6 g de proteína por quilo de peso por dia, calculados sobre um peso ajustado (pelo peso atual, a conta superestima a necessidade), ou algo entre 80 e 120 g por dia (Mozaffarian e colaboradores, Obesity 2025). Na prática: uma porção do tamanho da palma da mão de frango, peixe, ovos, carne magra, iogurte, queijo, feijão, lentilha ou grão-de-bico em cada refeição, e comida primeiro. Quem tem doença renal precisa de meta individualizada.
- Não pule refeições por falta de fome. Refeições menores e mais frequentes funcionam melhor do que pular e compensar.
- Água. Náusea, vômito e diarreia desidratam, e a desidratação sobrecarrega o rim.
- Vitaminas e minerais. Com ingestão muito baixa (abaixo de cerca de 1.200 kcal por dia em mulheres e 1.800 em homens), aumenta o risco de faltar ferro, cálcio, vitamina D, vitamina B12 e outros. A reposição, quando necessária, é individual. Sobre o que vale ou não suplementar, escrevi em suplementos: quais realmente funcionam.
- Fibras aos poucos, para a prisão de ventre.
Acima dos 60 anos, ou com risco de sarcopenia (perda de massa e de força muscular), a diretriz recomenda avaliar a sarcopenia (classe I, nível C) e combinar o remédio com treino de força e proteína adequada (classe IIa, nível B). Um teste simples, usado em consultório, é cronometrar quanto tempo a pessoa leva para levantar cinco vezes da cadeira sem usar os braços.
Trabalhar junto com nutricionista e profissional de educação física faz diferença real.
Perder peso rápido, comendo pouco e sem treino de força, é o caminho mais curto para perder músculo, principalmente depois dos 60.
Vou ter que usar para sempre?
Para a maioria das pessoas, o tratamento é de longo prazo: a obesidade é uma doença crônica, e o peso costuma voltar quando o remédio é suspenso.
Os estudos STEP 4 (Rubino e colaboradores, JAMA 2021) e SURMOUNT-4 (Aronne e colaboradores, JAMA 2024) já mostravam isso: quem trocou o remédio por placebo recuperou boa parte do peso perdido em cerca de um ano. Em janeiro de 2026, uma revisão sistemática com 37 estudos e 9.341 adultos, publicada no BMJ, estimou que, depois de parar a semaglutida ou a tirzepatida, o peso volta em média 0,8 kg por mês, retornando ao ponto de partida em cerca de um ano e meio. Considerando todos os remédios avaliados, pressão, glicose e colesterol voltaram aos valores iniciais em cerca de 1,4 ano, e o reganho foi mais rápido do que depois do fim de programas de mudança de hábitos (West e colaboradores, BMJ 2026). Os autores ressalvam que ainda há poucos estudos com os remédios mais novos, e com seguimento curto.
Isso não é fracasso pessoal. É biologia: sem o remédio, os mensageiros da saciedade voltam a falar baixo.
Por isso a diretriz da ABESO de 2026 recomenda manter o tratamento para sustentar o peso perdido, com reavaliações periódicas de eficácia e segurança (classe I, nível A). Para a maioria, a meta inicial razoável é perder 10% do peso ou mais (classe IIa, nível B); mesmo 5% já trazem ganho real de saúde.
Isso não significa a dose máxima para sempre. Quando a meta é atingida e o peso está estável, é possível, em pessoas selecionadas, descer de degrau em degrau:
- manter o peso estável por alguns meses;
- reduzir um degrau da dose;
- reavaliar em dois a três meses;
- encontrar a menor dose que segura o resultado, que, para muitos, não é zero.
Pausas completas são possíveis em casos selecionados, com um plano combinado para o caso de o peso voltar. É o mesmo raciocínio de reduzir com segurança que uso na desprescrição. E, de novo: a redução se faz com as doses que a caneta entrega, não com cliques.
As canetas emagrecedoras estão disponíveis no SUS?
Ainda não. Em outubro de 2026, nenhuma caneta para obesidade é oferecida de rotina pelo SUS, embora o governo federal tenha anunciado em setembro a intenção de oferecê-las, com protocolo clínico ainda em elaboração.
Em agosto de 2025, a Conitec (a comissão que avalia o que entra no SUS) recomendou não incorporar a liraglutida e a semaglutida para obesidade, por causa do custo, e a SBEM, a SBD e a ABESO discordaram publicamente. Em setembro de 2026, o Ministério da Saúde informou que a oferta está sendo estruturada e acompanha um estudo piloto, o Real-Bari, com 250 pacientes do SUS com obesidade grave ou com doenças associadas, no Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre (CFF, 2026). Critérios de acesso e data ainda não foram definidos.
Enquanto isso, vale conhecer os remédios que o SUS já oferece de graça para doenças associadas, como diabetes e pressão alta.
O que vem por aí?
As próximas novidades são remédios em comprimido e moléculas que agem em mais de um hormônio, e nenhuma delas está disponível no Brasil por enquanto.
- Semaglutida oral para obesidade (Wegovy em comprimido, 25 mg): aprovada nos Estados Unidos em dezembro de 2025. O pedido à Anvisa foi feito em janeiro de 2026 e, até esta atualização, não tinha decisão publicada.
- Orforglipron: comprimido da Eli Lilly que não é um peptídeo e dispensa jejum para ser tomado; aprovado nos Estados Unidos em abril de 2026.
- Retatrutida: age em três receptores (GLP-1, GIP e glucagon); está em estudos de fase 3 e não é vendida em nenhum país.
Novidade não é sinônimo de melhor. É sinônimo de menos tempo de observação. Na medicina sem pressa, esperar para ver como um remédio se comporta fora dos estudos é prudência, não atraso.
Mitos e dúvidas comuns
“A caneta vicia.” Não. Não há dependência química. O peso volta ao parar porque a doença continua, não por abstinência.
“Vai estragar minha tireoide.” O alerta vem de estudos em roedores, que desenvolveram tumores de tireoide; em humanos, esse risco não foi confirmado. Por precaução, quem tem história pessoal ou familiar de carcinoma medular ou NEM 2 não deve usar. Dosar calcitonina de rotina não é necessário.
“O genérico é mais fraco.” Não. É o mesmo princípio ativo, e o genérico precisou demonstrar equivalência ao seu medicamento de referência, o Ozivy. A diferença em relação ao Ozempic está na origem, nas impurezas possíveis e no tempo de uso acumulado, não na potência.
“Microdose é mais segura.” Não há estudo que mostre isso. Veja a seção sobre cliques.
“Depois que para, engorda mais do que estava antes.” Em média, os estudos mostram o peso voltando ao ponto de partida, não além dele. O que já é motivo suficiente para planejar a manutenção.
“Posso fazer jejum prolongado para perder mais rápido.” Não. Comer muito pouco acelera a perda de músculo e aumenta o risco de desidratação, de pedra na vesícula e, em quem tem diabetes, de hipoglicemia.
“E o tal ‘Ozempic face’?” É o aspecto envelhecido do rosto que acompanha qualquer perda de peso rápida, pela perda de gordura facial. Perda mais gradual, proteína, hidratação e treino de força ajudam.
“Quanto tempo leva para fazer efeito?” A fome diminui em poucas semanas; a perda significativa costuma aparecer em um a dois meses, e o efeito pleno, em quatro a seis meses. Se, depois de três a quatro meses na dose de manutenção, a perda for menor que 5%, é hora de rever a estratégia com o médico.
Quando o seu caso muda tudo
As regras gerais deste artigo valem para a maioria. Algumas situações, porém, mudam a conversa e pedem avaliação individual:
- Diabetes com insulina ou sulfonilureia: o risco de hipoglicemia exige ajuste das outras medicações.
- Retinopatia diabética: a melhora rápida da glicose pode piorar a retina temporariamente.
- Mais de 60 anos, fraqueza ou quedas: a perda de músculo pesa mais.
- Doença renal, pedra na vesícula ou pancreatite prévia.
- Transtorno alimentar, atual ou passado.
- Planos de engravidar.
- Cirurgia ou endoscopia com sedação programadas: o estômago esvazia mais devagar; avise o anestesista.
- Crianças e adolescentes, conforme a seção específica.
- Sobrepeso leve sem doença associada, ou quem nunca tentou um plano estruturado: muitas vezes, o melhor primeiro passo é outro.
Se você se reconheceu em algum desses itens, essa é a conversa para a próxima consulta. De preferência, antes da próxima caneta.
Como é o acompanhamento na prática?
O acompanhamento faz parte do tratamento: é ele que ajusta a dose, protege o músculo, identifica efeitos adversos e decide quando reduzir. E, com a receita retida válida por até 90 dias, ele vai acontecer de qualquer forma. Melhor que seja bem feito.
Antes de começar: história completa (inclusive a alimentar e as tentativas anteriores), exame físico com peso, cintura e pressão, e exames escolhidos pela história de cada pessoa, em geral glicemia, hemoglobina glicada, perfil lipídico e funções renal e hepática. Baterias de exames “para garantir” não ajudam e podem atrapalhar, como expliquei em exames sem indicação e o check-up em cascata. Calcitonina, só quando há história familiar suspeita.
Durante: consultas mais próximas no início, acompanhando os degraus da dose; depois, a cada dois ou três meses, e mais espaçadas quando tudo estiver estável. Em cada consulta, além do peso: tolerância, alimentação, treino de força e sinais de perda muscular.
Ter um médico que acompanha você ao longo do tempo, e conhece sua história além da balança, é o que transforma remédio em tratamento. É um dos papéis do médico de família.
Conclusão
A Dona Lúcia saiu da consulta sem a caneta da irmã (que voltou, intacta, para a dona) e sem a tabela de cliques. Saiu com uma receita na dose aprovada para o caso dela, o contato de uma nutricionista e um combinado: treino de força duas vezes por semana, na academia do prédio.
Meses depois, o número da balança tinha caído. Mas o que ela fez questão de me mostrar foi outra coisa: levantou da cadeira do consultório sem apoiar as mãos.
As canetas emagrecedoras são uma mudança real no tratamento da obesidade. Em 2026 ficaram mais acessíveis, com a semaglutida sintética e os genéricos, e com eles vieram atalhos perigosos: caneta emprestada, contrabandeada, manipulada, dose tirada no clique. O remédio funciona melhor acompanhado do que nenhum remédio substitui: comida de verdade com proteína, músculo trabalhado e um médico que acompanha.
Um forte abraço.
Perguntas frequentes
Semaglutida genérica é igual ao Ozempic? A semaglutida genérica tem o mesmo princípio ativo do Ozempic, mas não é igual em origem nem em indicação. O Ozempic é semaglutida biológica, produzida em levedura; os genéricos e o Ozivy são semaglutida sintética, aprovada pela Anvisa em 2026 para diabetes tipo 2 em adultos, em doses de até 1 mg por semana. A troca entre elas deve ser decidida pelo médico.
Qual a diferença entre Wegovy e Poviztra? Wegovy e Poviztra têm a mesma composição e o mesmo fabricante: são semaglutida biológica produzida pela Novo Nordisk, indicada para obesidade. O Poviztra é uma segunda marca, distribuída pela Eurofarma desde outubro de 2025, e não é genérico nem biossimilar.
Pode contar cliques na caneta de Ozempic ou Wegovy? Contar cliques não é recomendado. As bulas orientam a selecionar a dose apenas pelo contador e dizem expressamente para não contar cliques. A concentração muda entre as canetas, o mesmo volume de líquido pode conter mais que o dobro do remédio, e não há estudos que sustentem doses intermediárias ou microdoses.
Adolescentes podem usar caneta emagrecedora? No Brasil, a liraglutida (Saxenda) e a semaglutida 2,4 mg (Wegovy e Poviztra) são aprovadas para obesidade a partir dos 12 anos, com peso acima de 60 kg, sempre junto com mudança de hábitos e acompanhamento especializado. Abaixo dos 12 anos não há caneta aprovada para obesidade, e a tirzepatida é aprovada em adolescentes apenas para diabetes tipo 2.
Como evitar perder músculo usando caneta emagrecedora? A perda de músculo é reduzida com treino de força duas a três vezes por semana e proteína adequada em todas as refeições. Durante a perda de peso, sociedades americanas propõem de 1,2 a 1,6 g de proteína por quilo de peso ajustado por dia, e a diretriz brasileira de 2026 recomenda avaliar sarcopenia em quem tem mais de 60 anos.
Referências
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- Rubino D, Abrahamsson N, Davies M, et al. Effect of continued weekly subcutaneous semaglutide vs placebo on weight loss maintenance in adults with overweight or obesity: the STEP 4 randomized clinical trial. JAMA. 2021;325(14):1414-1425. doi:10.1001/jama.2021.3224
- Aronne LJ, Sattar N, Horn DB, et al. Continued treatment with tirzepatide for maintenance of weight reduction in adults with obesity: the SURMOUNT-4 randomized clinical trial. JAMA. 2024;331(1):38-48. doi:10.1001/jama.2023.24945
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- Anvisa. Canetas emagrecedoras só poderão ser vendidas com retenção de receita (RDC nº 973/2025). 2025. Disponível aqui
- Institute for Safe Medication Practices (ISMP). Errors possible when microdosing (counting clicks) to dose weight-loss medicines. Janeiro de 2025. Disponível aqui
- Novo Nordisk. Ozempic (semaglutida): bula para o profissional de saúde. Disponível aqui
- Novo Nordisk. Poviztra (semaglutida): bula para o profissional de saúde. Disponível aqui
- Novo Nordisk. Saxenda (liraglutida): bula para o profissional de saúde. Disponível aqui
- EMS. Ozivy (semaglutida): bula. Disponível aqui
*A Imagem que ilustra esse artigo foi gerado por inteligência artificial.
